Daniel Mears/Detroit News via AP
Daniel Mears/Detroit News via AP

Protestos de caminhoneiros no Canadá bloqueiam fronteira com os EUA e ameaçam comércio

Manifestantes bloquearam a Ponte Ambassador que liga Detroit e Windsor, por onde passa 25% das exportações canadenses para os EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2022 | 11h20

OTTAWA - Caminhoneiros e apoiadores que protestam contra medidas anticovid no Canadá promoveram um novo bloqueio rodoviário, cortando a ligação mais movimentada do país com os Estados Unidos. A manobra ameaça minar um setor significativo da economia do Canadá, já que 25% do comércio do país com o vizinho passa por ali.

Há duas semanas, a capital Ottawa está paralisada em meio aos protestos do chamado "Comboio da Liberdade" contra as medidas de restrição do primeiro-minitro Justin Trudeau. O novo protesto desta terça-feira, 8, é menor do que os que atingiram a capital, porém, tem como alvo a Ponte Ambassador que liga Detroit e Windsor, em Ontário.

Caminhões pesados e veículos particulares bloquearam o tráfego com destino ao Canadá. Na manhã de terça-feira, 8, a Agência de Serviços de Fronteiras do Canadá listou a ponte como “temporariamente fechada”. Mas a polícia de Windsor disse no Twitter que o tráfego estava novamente se movendo para os Estados Unidos através de uma entrada secundária.

A ponte é um elo vital para a indústria automobilística, que depende de um constante transporte de peças e componentes através da fronteira para manter as fábricas funcionando em Ontário e no Meio-Oeste dos Estados Unidos. 

O Canadá envia 75% de suas exportações de mercadorias para os Estados Unidos e os caminhões desempenham um papel crucial. Somente pela Ponte Ambassador passa 25% de todo esse comércio, segundo o ministro da Segurança Pública, Marco Mendicino, que chamou a ponte de “uma das passagens de fronteira mais importantes do mundo. ”

O ministro canadense dos Transportes, Omar Alghabra, disse que esses bloqueios terão sérias implicações na economia e nas cadeias de suprimentos. “Já ouvi de montadoras e mercearias. Este é realmente um sério motivo de preocupação”, disse ele em Ottawa.

As manifestações começaram no final de janeiro, depois que o Canadá impôs uma nova regra exigindo que os caminhoneiros transfronteiriços fossem totalmente vacinados para entrar no país. O protesto logo se tranformou em uma insatisfação contra todas as medidas de restrições impostas no país para conter a disseminação da covid-19.

Trudeau defende fim dos protestos

Em Ottawa, onde o bloqueio se estende por dias, o prefeito, Jim Watson, pediu ao governo federal a nomeação de um mediador para dialogar com os manifestantes e alcançar uma maneira de desativar os protestos, que irritam os moradores com suas incessantes buzinas e a fumaça, além de bloquear vias importantes de tráfego.

A polícia de Ottawa disse que abriu 60 investigações criminais, emitiu centenas de multas, rebocou veículos e fez pelo menos 20 prisões desde sexta-feira. Monumentos nacionais foram depredados e empresas forçadas a fechar por questões de segurança. Um estado de emergência foi anunciado para a cidade no domingo.

Trudeau, cujo governo se tornou o alvo do comboio, escreveu no Twitter que os canadenses têm o direito de protestar. “Mas vamos ser claros: eles não têm o direito de bloquear nossa economia, ou nossa democracia, ou a vida cotidiana de nossos concidadãos”, disse ele. 

De acordo com estimativas, entre 400 e 500 caminhões bloqueavam o centro da cidade. "Isto tem que parar", afirmou o primeiro-ministro na segunda-feira em seu retorno à Câmara dos Comuns, após uma semana de isolamento por contágio da covid-19. O premiê precisou ser deslocado com a família para um local seguro depois que os protestos começaram na capital.

A situação levou o Parlamento a convocar uma reunião urgente para debater os próximos passos. "O governo federal responderá", prometeu Trudeau.

Entre as cidades que registraram manifestações no fim de semana estão Toronto, Winnipeg e Quebec.

Uma da porta-vozes dos manifestantes, Tamara Lich, afirmou na segunda-feira que os ativistas estão dispostos a negociar com o governo para buscar uma solução para a crise, mas insistiram que as restrições devem ser reduzidas.

"O que tentamos fazer agora é entrar em contato com todas as partes a nível federal, para conseguir organizar uma reunião", declarou em um evento transmitido no YouTube. "Para que possamos começar os diálogos e ver como podemos avançar, obter a suspensão das restrições e mandatos, restaurar os direitos e liberdades dos canadenses e ir para casa", completou.

Após as críticas por ter permitido o bloqueio do centro da capital, com lojas fechadas, a polícia de Ottawa anunciou no domingo novas medidas para controlar os protestos, com a proibição da entrega de combustível e mantimentos aos manifestantes.

Apoio de republicanos dos EUA

Autoridades de alto escalão do governo canadense reagiram ao apoio de republicanos influentes dos EUA ao auto-denominado “Comboio da Liberdade”. O grupo canadense atraiu a atenção de políticos dos EUA que debatem os protocolos de contenção do coronavírus em seu próprio país e contou com o apoio de figuras republicanas proeminentes, incluindo o ex-presidente Donald Trump.

Respondendo a alguns desses críticos na segunda-feira, o ministro Marco Mendicino, disse: “Somos canadenses. Temos nosso próprio conjunto de leis. Nós os seguiremos.”

Chamando Trudeau de “lunático de extrema-esquerda”, Trump disse em comunicado na sexta-feira que “mandatos insanos de covid” estão destruindo o Canadá e instou o comboio a ir para Washington para protestar contra as medidas de saúde pública dos Estados Unidos.

O governador da Flórida, Ron DeSantis, e o procurador-geral do Texas, Ken Paxton, ambos republicanos, twittaram no fim de semana que seus estados investigarão o GoFundMe depois que a plataforma de arrecadação de fundos disse que estava congelando mais de US$ 8 milhões em doações para os organizadores do comboio.

Mas Mendicino reagiu na segunda-feira, dizendo: “Certamente não é a preocupação do procurador-geral do Texas como nós, no Canadá, lidamos com nossas vidas diárias de acordo com o estado de direito”.

“Precisamos estar atentos a possíveis interferências estrangeiras. Quaisquer declarações que possam ter sido feitas por alguma autoridade estrangeira não interessam aqui nem lá”, disse Mendicino durante uma entrevista coletiva.

Da mesma forma, o ministro de de Segurança Pública do Canadá, Bill Blair, disse na segunda-feira: “Todos temos direito a uma opinião e, na minha opinião, [Paxton] está errado ”.

Protestos espalham

Os sentimentos anti-saúde pública expressos pelos participantes do "Comboio da Liberdade" em Ottawa estão sendo amplificados em outras partes do mundo.

Por exemplo, os participantes do “ Comboio para Canberra” passaram a semana passada protestando contra os mandatos de vacinas da Austrália. A polícia da capital alertou os moradores na segunda-feira que as atividades de protesto podem aumentar esta semana e atrapalhar o tráfego e os espaços públicos.

Um comboio de carros e vans de inspiração semelhante bloqueou as ruas ao redor do Parlamento da Nova Zelândia na terça-feira. E comícios estão sendo organizados na Europa, enquanto os opositores às medidas de saúde pública correm para planejar em vários canais do Telegram.

No Alasca, no domingo, mais de 100 caminhoneiros se reuniram em Anchorage e se reuniram para mostrar apoio aos manifestantes de Ottawa, de acordo com o Anchorage Daily News . O prefeito republicano da cidade, Dave Bronson, e o senador americano Dan Sullivan supostamente participaram do evento./ AFP, AP, REUTERS, NYT e W.POST

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