Tensão cambial sobre o bolívar pressiona economia chavista

Déficit fiscal e alta das importações e dos preços fazem dólar disparar no paralelo e abrem debate sobre desvalorização

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h02

Passado um mês da reeleição do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, economistas alertam para a necessidade de uma desvalorização do bolívar forte, a moeda do país. O aumento do déficit fiscal venezuelano e a escalada de preços dos produtos importados, além da escassez de reservas em moeda estrangeira do governo são os principais fatores macroeconômicos que pressionam pela desvalorização, dizem analistas consultados pelo Estado.

Na Venezuela, o câmbio é fixo e controlado com mão de ferro pelo governo. A cotação oficial é de 4,30 bolívares por dólar. No mercado paralelo, no entanto, a moeda americana chega a ser cotada em sites na internet a 15,2 bolívares, mais que o triplo do valor oficial.

A consultoria Econométrica, crítica do chavismo, estima o déficit fiscal venezuelano em 15% do PIB. Com a desvalorização, o governo teria margem de manobra para reduzir esse déficit, obtendo mais bolívares para quitar a dívida.

Por outro lado, o impacto sobre os preços seria considerável. A Venezuela tem uma das taxas de inflação mais altas da América Latina, que, nos últimos doze meses encerrados em outubro, ficou em 17,3%. Com a receita vinda da alta do petróleo nos últimos anos, Chávez impulsionou as importações para conter a escassez de produtos em ano de eleição.

Somente no primeiro semestre, as compras de produtos do exterior cresceram 27,3%. O problema é que a demanda também cresceu, e com ela, os preços. "Vivemos uma espiral inflacionária. Os eletrodomésticos importados encareceram, em média, 30%", diz o analista Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela. "Uma desvalorização direta seria muito custosa porque jogaria os preços lá em cima. O governo tem condições de evitar isso jogando com diferentes taxas de câmbio no mercado paralelo." Caracas já negou reiteradas vezes que pretenda desvalorizar o bolívar em 2013. Pouco antes da eleição, Chávez dissera que não estava previsto nenhum ajuste no câmbio, porque as variáveis macroeconômicas do país eram "estáveis". Na semana passada, no entanto, seu ministro da Economia, Jorge Giordani disse que, apesar da necessidade de manter o regime de câmbio fixo, um certo nível de flexibilização é possível.

Flexibilização. "Há de se flexibilizar as coisas para nos adequar à situação econômica atual", disse o ministro ao jornal estatal Correo del Orinoco. Ainda de acordo com Giordani, o Banco Central da Venezuela está monitorando de perto o mercado paralelo de dólar.

"Uma das alternativas do governo pode ser criar um tipo de mercado para o dólar turismo, que serviria para desafogar a pressão sobre a moeda americana", acrescenta Romero.

Para o economista Robert Bottome, editor do Veneconomia, a desvalorização não é só necessária como urgente. "Do ponto de vista da política econômica, faz sentido desvalorizar. Mas quem decide é o governo", afirma. "A diferença da Venezuela para os outros países é que por ser exportadora de petróleo, consegue mais recursos, caso desvalorize. O problema da desvalorização é o impacto inflacionário, que vai afetar os mais pobres."

Bottome aposta que o governo deve esperar o resultado das eleições regionais de 1.º de dezembro para anunciar qualquer mudança. "Na minha opinião, o governo deve anunciar mudanças sobre o câmbio na última semana do ano, depois das eleições, durante as férias de Natal, para começar 2013 com novos índices", prevê.

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