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Tensão com EUA tem impacto no beisebol local

Clubes americanos começam a fechar centros de formação de jogadores em cidades venezuelanas

O Estado de S.Paulo

16 Março 2015 | 02h02

O dia da mudança está próximo e o treinador Emilio Carrasquel inspeciona os bastões de beisebol e coloca as camisetas nas caixas, certificando-se de que nada foi esquecido.

Nos últimos 15 anos, a pequena cidade de Aguirre, no Estado venezuelano de Carabobo, foi sede dos Seattle Mariners e campo de treino para um punhado de grandes talentos nativos do beisebol.

Esta semana, veio a notícia de que as atividades se encerraram abruptamente, a mais recente de um grupo de 16 equipes da primeira divisão americana que abandonaram a Venezuela na década passada em consequência da turbulência econômica, da onda crescente de crimes e as tensões com os Estados Unidos.

Em 30 de abril, o clube fechará as portas do seu centro de treinamento na Venezuela e um grupo de cerca de 30 adolescentes considerados promessas para o futuro no esporte será levado para uma academia criada recentemente na República Dominicana.

"A notícia provocou um grande impacto - não sabíamos que isso ocorreria da noite para o dia", disse Carrasquel, que chefia as operações dos Mariners na Venezuela.

Os Mariners informaram que sempre foi sua intenção consolidar o seu programa de formação de jogadores na República Dominicana, onde praticamente todas as equipes da primeira divisão têm presença e onde construíram um conjunto esportivo de última geração por US$ 7,5 milhões.

Sua saída deixa quatro grandes times da primeira divisão lutando corajosamente na Venezuela - Detroit, Tampa Bay, Chicago Cubs e Philadelphia. "As atividades continuam normais. Não há mudanças", disse um porta-voz do Philadelphia.

As saídas de um país que produziu grandes nomes do beisebol, como Miguel Cabrera, Johan Santana, Omar Vizquel, Andres Galarraga e Luiz Aparício, que entrou para o Hall da Fama, começaram quando as relações entre Venezuela e EUA chegaram ao seu nível mais baixo com acusações do presidente Nicolas Maduro de que Washington está conspirando para tirá-lo do poder.

Os Estados Unidos negaram as acusações de golpe, que afirmaram ser uma tentativa desesperada para desviar a atenção de uma crise econômica marcada por uma inflação que chega aos 68% e uma escassez generalizada de produtos, desde desodorante até peças de automóveis.

Violência. Além de pressões econômicas e políticas, as equipes também enfrentam o problema de manter jogadores funcionários em segurança nesse que é considerado o país com maior número de crimes do mundo.

Para os jogadores, esses riscos ficaram bem à mostra quando o atleta do Washington Nationals, Wilson Ramos, foi sequestrado sob ameaça de um revólver em 2011, diante da casa da sua família na cidade de Valencia, que fica a 90 minutos de carro do campo do Mariners.

O local é um oásis, longe de todo tumulto. Os cerca de 300 jogadores adolescentes que passam por ali a cada ano nunca precisaram se preocupar com uma refeição completa, dormindo em quartos espaçosos, com frequência mais confortáveis do que sua família poderia ter.

O êxodo de tantas equipes não parece ter afetado as chances de a Venezuela ser bem vista na categoria. No ano passado um número recorde de 97 atletas atuou pelo menos numa partida nos jogos da primeira divisão.

Nem todos, no entanto, serão transferidos para a República Dominicana. Cerca de 100 funcionários, entre cozinheiros, zeladores e pessoal de manutenção devem perder seus empregos nas próximas semanas e, como muitos na Venezuela, terão de enfrentar um futuro incerto.

"Não sei porque estão partindo", afirmou Carlos Galindez, segurando as lágrimas, pensando com orgulho no seu trabalho de zelar por dois campos da academia. "Tudo o que posso dizer é que eles nos tratavam muito bem". / AP

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