Tensão entre israelenses e palestinos aumenta antes da chegada de Kerry

Protestos contra acordo de paz se intensificam, principalmente após comissão ministerial de Israel aprovar projeto de anexação do Vale do Jordão, no domingo, e diminuir as esperanças da missão do secretário de Estado dos EUA na região

Ramallah, O Estado de S.Paulo/Reuters e AP

01 de janeiro de 2014 | 02h06

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, chega amanhã a Israel para apresentar as diretrizes de um acordo de paz para o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e para o premiê israelense, Binyamin Netanyahu. Às vésperas da chegada do chefe da diplomacia americana, porém, a tensão se elevou na região, principalmente após a aprovação da anexação do Vale do Jordão por uma comissão do governo de Israel, no domingo.

A comissão de ministros aprovou a proposta por oito votos a favor e três contra. Apresentado por Miri Regev, deputada do Likud, liderado por Netanyahu, o projeto procura aplicar a legislação israelense em todos os assentamentos judaicos e nas estradas que conduzem a eles, o que significa uma anexação de facto do território estratégico localizado na Cisjordânia.

A região teria um status parecido com o determinado por Israel, em 1981, às Colinas do Golan, tomadas da Síria em 1967, e Jerusalém Oriental, anexada por lei aprovada no Parlamento israelense, em 1980. O Vale do Rio Jordão faz parte dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, reivindicados pelos palestinos.

Apesar de ainda ter um longo e difícil caminho até ser transformada em lei, a aprovação é simbólica e demonstra a intensidade da oposição de membros do governo a um acordo de paz que resulte na criação de um Estado palestino na Cisjordânia, em Jerusalém e em Gaza.

A décima visita de Kerry à região terá a missão de romper o impasse nas discussões sobre princípios gerais, como segurança nas fronteiras, refugiados, o status de Jerusalém - que ambos os lados querem como capital - e o reconhecimento do Estado de Israel pelos palestinos. O prazo para a conclusão do diálogo é abril, mas pouca gente acredita que as negociações terão sucesso.

Às vésperas da chegada de Kerry, vários muros na Cisjordânia amanheceram com pichações: "Sangue será derramado na Judeia e em Samaria (nomes bíblicos da Cisjordânia)". Segundo a polícia, judeus extremistas foram os autores das pichações e são os responsáveis por distúrbios e incêndios de carros em vilarejos dos territórios ocupados.

Colonos judeus estão organizando manifestações que terão a presença do ministro do Interior, Gideon Sa'ar, para marcar a construção de novas casas no Vale do Jordão. As celebrações ocorreriam no mesmo dia da chegada do secretário de Estado dos EUA.

O Vale do Jordão, área na fronteira com a Jordânia, é considerada fundamental para Israel, com dezenas de assentamentos judaicos, muitos sustentados pelo agronegócio voltado para a exportação. O governo israelense pretende manter uma presença militar indefinida na região, que serviria de território tampão para conter Estados árabes e organizações paramilitares hostis.

Saeb Erekat, negociador-chefe palestino, disse que a medida "acaba com todo o processo de paz". Em comunicado, ele afirmou que os palestinos estão "repensando sua participação no diálogo". "Negar à Palestina sua única fronteira internacional com a Jordânia é um passo claro na direção de um regime de apartheid", disse.

Liberdade. Na segunda-feira, Israel libertou 26 prisioneiros palestinos como gesto de boa vontade para retomar as negociações. No total, 104 detentos deverão ser soltos em quatro etapas - uma das condições colocadas há cinco meses por Ramallah para retomar as negociações com Israel, que estavam suspensas desde 2009.

Como nas duas etapas anteriores de libertação, houve manifestações de repúdio organizadas pelas famílias de vítimas dos presos, condenados por envolvimento em atentados contra israelenses. Nos protestos, manifestantes marcharam da residência de Netanyahu até o Muro das Lamentações. Muitos pintaram as mãos de vermelho, imitando sangue.

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