Tensão entre sunitas e xiitas cresce no Iraque enquanto EUA deixam o país

Turbulência. Último comboio americano parte na direção do Kuwait, em operação secreta para evitar ataques, ao mesmo tempo em que principal bloco sunita do Parlamento anuncia suspensão de suas atividades legislativas e acusa Maliki de concentrar poder

BAGDÁ, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h04

No fim de semana que marcou a retirada das últimas tropas americanas do Iraque - celebrada ontem entre a população, após os soldados dos EUA deixarem o país na direção do Kuwait, no amanhecer -, sinais da crescente tensão sectária iraquiana já se mostravam evidentes. No sábado, o bloco sunita suspendeu sua participação no Parlamento do país, acusando o governo do primeiro-ministro xiita Nuri al-Maliki de concentrar o poder.

Orquestrada pelo ex-premiê Iyad Allawi, a manobra do bloco Iraqiya intensifica o empurra-empurra político entre xiitas, sunitas e curdos que compõem o frágil governo de poder compartilhado. O Iraqiya afirmou em um comunicado que está "suspendendo sua participação no Parlamento até o próximo aviso", acusando Maliki de não cumprir promessas de formar um governo de coalizão.

A decisão do grupo sunita evidencia as tensões com os xiitas - sempre próximas à superfície política do Iraque - e demonstra a fragilidade do balanço de poder no governo do país.

O Iraqya reclama que o primeiro-ministro está demorando para nomear cargos-chave, como o dos ministros da Defesa e da Segurança, que estão vagos há um ano por causa de rixas políticas.

Com a base de apoio na minoria sunita, o bloco obteve o maior número de assentos nas eleições de 2010, mas falhou em reunir a maioria necessária para estabelecer um governo. Juntou-se à coalizão de Maliki em dezembro, obteve poderosos cargos, como a presidência e a vice-presidência do Parlamento, e posições ministeriais.

Muitos sunitas se sentiram marginalizados pelo último governo e pela ascensão da maioria xiita ao poder após a deposição de Saddam Hussein, com a invasão americana de 2003.

"Esses políticos vão conduzir o país à revolta e à guerra civil. O Iraque agora é como uma frágil presa entre vizinhos ferozes", disse o comerciante xiita Karim al-Rubaie, de Basra, no sul do país, afirmando que os representantes "não passam de um grupo de ladrões". "Ninguém aqui quer ocupação. Essa retirada marca um novo estágio da história iraquiana", disse.

Celebração e violência. Em Mossul, no norte iraquiano, o confeiteiro Muhannad Adnan disse que a venda de bolos foi acima do normal em seu estabelecimento ontem, pois muitos iraquianos comemoravam a saída dos EUA dando festas em suas casas. Durante a manhã, uma bomba escondida embaixo de uma pilha de lixo explodiu em uma região xiita do leste de Bagdá. Duas pessoas morreram e outras quatro ficaram feridas. A violência no Iraque está muito menor do que em 2006 e 2007, anos mais intensos da guerra, quando insurgentes sunitas e milícias xiitas matavam iraquianos em todo o país, em um conflito sectário que quase se tornou uma guerra civil. Esses grupos armados, porém, ainda existem, assim como as dúvidas sobre a capacidade das forças iraquianas em contê-los sem a presença dos EUA.

O último comboio americano deixou o Iraque na direção ao Kuwait em uma operação envolta em segredo, para evitar possíveis ataques. Quando a notícia da saída chegou, a alegria tomou conta dos iraquianos. / REUTERS e AP

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