Ludovic Marin/Pool via REUTERS
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Tensão entre Trump e Macron marca abertura de encontro da Otan

Presidente americano criticou entrevista em que líder europeu disse à revista 'The Economist' que organização estava em 'morte cerebral'; ao lado do colega, presidente francês diz que 'mantém seu comentário'

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 17h59
Atualizado 03 de dezembro de 2019 | 19h51

LONDRES - A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), peça fundamental da Guerra Fria, completou 70 anos de fundação mais dividida do que nunca. Na cúpula de dois dias, iniciada nesta terça-feira, 3, em Londres, o francês Emmanuel Macron bateu de frente com dois outros membros da aliança atlântica, os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.  

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Lado a lado, em uma estranha aparição conjunta, Trump e Macron trocaram farpas diante dos jornalistas. A situação ficou tensa quando o americano foi questionado sobre a possibilidade de a França receber jihadistas presos na Síria. Trump respondeu que o assunto não havia sido abordado entre os dois, e arriscou uma brincadeira com o francês.

“Você gostaria de alguns ótimos combatentes do Estado Islâmico? Eu poderia dá-los a você.” Visivelmente irritado, Macron respondeu, corrigindo o americano. “Vamos falar sério. A maioria dos combatentes veio da Síria, do Iraque e dos arredores. É verdade que há combatentes estrangeiros vindos da Europa, mas são uma minoria.”

Trump e Macron sempre tiveram uma boa relação. Em 2017, presidente americano foi convidado e compareceu à parada militar de 14 de Julho, em Paris, quando os franceses celebram a queda da Bastilha. Maravilhado com o desfile, ele decidiu copiar o cortejo e promoveu uma exibição de força em Washington, no feriado de 4 de Julho, dia da independência dos EUA, no ano passado.  

Nos últimos meses, porém, a relação descarrilou. Os dois líderes passaram a discordar em quase tudo: defesa, política externa, comércio e mudanças climáticas. Antes da cúpula de Londres, Trump ameaçou impor tarifas de até 100% sobre US$ 2,4 bilhões em importações de champanhe, bolsas de mão e outros produtos franceses. Ontem, Paris qualificou as restrições de “inaceitáveis” e prometeu retaliar. 

Em novembro, em entrevista à revista britânica The Economist, Macron afirmou que a Otan está em “estado de morte cerebral” em razão da falta de coordenação estratégica entre os aliados europeus, de um lado, e EUA e Turquia, de outro. O presidente francês chamou de “louca” a operação militar da Turquia contra os curdos na Síria, lançada dois dias após o início da retirada das tropas americanas da região, ordenada por Trump.

Nesta terça-feira, ao lado do secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, Trump respondeu às declarações de Macron. “Acho muito ofensivas. Ninguém precisa mais da Otan do que a França. É uma declaração muito perigosa para eles”, declarou o presidente americano. “Eles têm uma taxa de desemprego muito alta na França. A França não está indo bem economicamente.”

Horas depois, quando estava frente a frente com Trump, Macron voltou ao assunto. “Eu sei que as minhas declarações provocaram a reação de muitas pessoas”, afirmou o francês, em inglês. “Mas eu mantenho o que eu disse. Não é certo ser explorado na Otan e no comércio. E é isso o que está acontecendo.”

Mas Macron não entrou em atrito apenas com Trump. Erdogan também não escapou. O presidente turco foi criticado pela França por ameaçar vetar o plano de defesa da Otan para os países bálticos, a menos que a aliança concorde em rotular alguns grupos curdos como terroristas.

O presidente francês também condenou Erdogan por comprar um sofisticado sistema russo de mísseis antiaéreos, o S-400. “Como pode um membro da Otan comprar um sistema de defesa russo?”, questionou Macron. “Tecnicamente, isto não é possível.” O governo francês argumenta que a parafernália militar russa dentro da Otan expõe à inteligência da Rússia informações sobre equipamentos estratégicos, especialmente os caças F-35.

Na semana passada, em resposta à hostilidade da França, Erdogan afirmou que a declaração sobre a morte cerebral da Otan reflete um entendimento “doentio e raso”. “Estou me dirigindo ao senhor Macron: primeiro você deveria verificar se não foi o senhor que sofreu morte cerebral”, disse o turco.

Heather Conley, diretora do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que Macron viu uma oportunidade de afirmar a liderança francesa na Europa, com a Grã-Bretanha se movendo para deixar a União Europeia e o governo alemão envolvido em vários problemas internos. “Macron está aproveitando esse momento, procurando ser disruptivo à sua maneira”, disse Conley. “Veremos se isso funciona.” / NYT

 

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