AP Photo/Ghaith Alsayed
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Tensão entre Turquia e Síria aumenta após bombardeios com 33 mortos

Turcos apoiam os rebeldes sírios, enquanto russos lutam pela manutenção do regime de Assad

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2020 | 09h39

ISTAMBUL - A tensão entre a Turquia e a Síria aumentou nesta sexta-feira, 28, após bombardeios na região de Idlib, o último front da guerra civil que se arrasta há quase uma década no país árabe. Na madrugada de sexta, a Turquia bombardeou posições do regime de Bashar al-Assad em resposta a um ataque aéreo que matou pelo menos 33 soldados turcos na quinta. Eles prometeram uma retaliação "à altura". 

A Rússia, aliada importante do governo de Assad, afirmou que as tropas russas estavam lutando ao lado de forças jihadistas na região de Behun quando foram atingidas. O ataque aéreo sírio ocorreu após rebeldes retomarem o controle da cidade de Saraqeb, que fica perto de duas estradas controladas pelas forças do governo. Foi o evento mais significativo para os oposicionistas nas últimas semanas. Em Ancara, Erdogan comemorou. 

Por sua vez, as forças aéreas sírias continuam tentando retomar Idlib dos rebeldes, que são apoiados pela Turquia. Os turcos advertiram o governo sírio para que se afaste dos postos de observação turcos, já que um acordo firmado em 2018 com a Rússia para a região prevê 12 postos de observação turcos na região. Mas vários já foram atacados. 

O agravamento da crise entre os dois países levou o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, a convocar uma reunião de emergência sobre a segurança na região. "Estamos decididos a fazer de Idlib uma região segura para a Turquia e para a população local, a qualquer custo", disse ele na última terça.

O ministro de Relações Exteriores turco, Mevlut Cavusoglu, conversou com o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, depois do ataque sírio, mas não há detalhes sobre o conteúdo da conversa. Stoltenberg fez um apelo pelo fim da escalada na região e condenou os ataques atribuídos às forças aliadas do regime sírio. 

Desastre humanitário

A ofensiva em Idlib tem provocado uma nova onda de refugiados, com quase um milhão de pessoas deixando a área em busca de segurança, no que a Organização das Nações Unidas (ONU) classificou de "catástrofe". Segundo a agência Reuters, oficiais que trabalham na fronteira com a Síria estão a postos para um eventual fluxo acima da média de refugiados, e as autoridades teriam decidido não mais impedir que as pessoas sigam em direção à Europa. 

Segundo a imprensa russa, oposicionistas estavam usando foguetes portáteis para atacar os aviões — as armas vieram da Turquia, que vem fornecendo equipamentos militares para as milícias. "Violando os acordos de Sochi em Idlib, a Turquia segue dando apoio a grupos armados ilegais, com uso de artilharia pesada e drones", afirmou em nota o Ministério da Defesa da Rússia. 

Os Estados Unidos manifestaram seu apoio à Turquia, aliada na Otan, e pediram o fim da "desprezível ofensiva do regime Assad, da Rússia e das forças apoiadas pelo Irã". 

Putin rejeita reunião em cúpula 

O governo da Rússia negou que o presidente Vladimir Putin vá participar de uma reunião de cúpula para discutir a situação. De acordo com seu porta-voz, Dmitri Peskov, Putin "tem outros planos de trabalho" para o dia 5 de março, data proposta pelo líder turco, Recep Tayyip Erdogan, para o encontro, que também contaria com o presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel.

Peskov disse que não há nem houve uma confirmação de viagem de Putin para Istambul, mas ressaltou que os dois países continuam a se comunicar "para discutir a crise em Idlib". No sábado, Erdogan anunciou com alarde a reunião de cúpula com Macron e Putin, pouco depois de conversas por telefone com os líderes russo, francês e a alemã. Segundo ele, a ideia partiu de Merkel e Macron, mas Putin não endossou publicamente o encontro.

Reunião extraordinária

Após a rejeição de Moscou, o presidente turco convocou uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança Nacional do país. O ruído na comunicação entre os dois líderes mais influentes hoje na Síria reflete as muitas diferenças entre Moscou e Ancara quando o assunto é a ofensiva em Idlib, província síria na fronteira com a Turquia.

Desde dezembro do ano passado, as forças do governo sírio, chefiadas por Bashar al-Assad, tentam suprimir posições de grupos armados da oposição na região. Eles incluem o Exército Livre da Síria, que inicialmente recebeu apoio do Ocidente, além das milícias fundamentalistas Partido Islâmico do Turquestão, Ajnad al-Kavkaz (Soldados do Cáucaso) e Hayat Tahrir al-Sham (Organização pela Libertação do Levante), esta última ligada à al-Qaeda e hoje a força dominante militarmente em Idlib.

Em questão de semanas, os militares sírios conquistaram grandes porções de território, contando com o apoio direto da Rússia, especialmente com bombardeios, provocando reações negativas da Turquia, país que deseja ver a queda do regime de Assad e que recebeu a maior quantidade de refugiados no conflito: mais de três milhões.

O ministro da Defesa turco, Hulusi Akar, disse à CNN Turquia que todos os problemas poderiam ser resolvidos se as forças de Moscou "ficassem de lado". Mas analistas acreditam que o mais provável é um acordo entre os dois países, com os turcos concordando em reduzir sua presença militar em troca de um papel nas decisões sobre o futuro da Síria.

Segundo o ex-diplomata russo Vladimir Frolov, a proposta de Putin é deixar Assad no controle da maior parte do território do país, à exceção de uma pequena faixa em Idlib, controlada pela Turquia e patrulhada pela Rússia. A faixa atenderia à demanda turca de defesa contra as milícias curdas sírias, que Erdogan vê como aliadas dos separatistas curdos da Turquia.

Aliada de primeira hora de Assad e com grandes interesses na manutenção do regime, a Rússia, que tem uma base naval na Síria, deu ao governo de Damasco o apoio militar necessário para reverter avanços de forças de oposição e do Estado Islâmico. De acordo com assessores, Moscou e Ancara seguem trabalhando para um cessar-fogo duradouro, e não trabalham com a hipótese de um confronto direto entre militares dos dois lados em solo sírio. / Reuters e AFP

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