Tensão, fome e medo na Basílica da Natividade em Belém

A tensão, a fome e o medo reinam no interior da Basílica da Natividade em Belém, onde mais de 200 palestinos permanecem refugiados há dois dias, sitiados por soldados israelenses que negam ter atacado a igreja que se ergue nessa cidade santa da Cisjordânia onde, segundo a cristandade, Jesus nasceu. Não é possível esclarecer o que realmente aconteceu nasúltimas horas dentro da igreja, a mais antiga do mundo. O que se sabe é que o templo perdeu hoje seu sacristão,Samir Ibrahim Salman, que, entre outras atribuições, tinha a detocar os sinos: o pacato palestino, de religião católica, quededicou boa parte de seus 45 anos de vida a cuidar do lugar, foimortalmente baleado nesta quinta-feira quando tentava chegar aseu local de trabalho. Outra certeza, contam os frades franciscanos, é a de quepalestinos armados escaparam da Basílica e entraram à força noalbergue do convento, a "Casa Nova", dizendo que osisraelenses haviam derrubado a porta dos fundos e estavamprestes a entrar. Alguns palestinos, incluindo o governador da Cisjordânia Muhammad al Madani, disseram que os soldados abriram a tirosuma pequena porta de ferro que desde a via da Gruta do Leite dáacesso ao complexo de igrejas e conventos, e que depois sedetiveram do lado de fora da basílica, lançando de quando emquando granadas ensurdecedoras. Enquanto al Madani falava pelo telefone com a Ansa,ouviam-se claramente os disparos, entre os quais era impossíveldistinguir se se tratava de armas de fogo israelenses ou depalestinos que rompiam as grades para entrar no convento. Um jornalista, em um albergue nas proximidades,confirmou o ataque à porta. O sacerdote Ibrahim Faltas, reitordo Instituto Franciscano, indicou em diversas entrevistas que aentrada foi realmente derrubada - mas não disse como. Em uma entrevista à televisão jordaniana, o prefeito deBelém, Hanna Nasser, disse por sua vez que os militaresisraelenses dispararam contra duas portas, a principal e a quedá para o pátio interno da igreja. Jornalistas estrangeiros que tentaram chegar até a Praçada Manjedoura, cheia de soldados, foram bloqueados por militares a cerca de 400 metros da Basílica - distância suficiente para impedir qualquer verificação. Israel, que se comprometeu a não profanar os lugaressantos, negou ter tentado entrar na igreja, definindo asacusações palestinas como "embustes" e "pura propaganda".A delegação apostólica, em frenética atividadediplomática, limitou-se a declarar que seus membros, tendo àfrente o patriarca latino, Michel Sabbah, estão "rezando".Os 40 monges franciscanos e as quatro freiras doconvento se entrincheiraram no andar superior do albergue,aterrorizados pela possibilidade de um combate entre israelensese palestinos. Uma freira refugiada em um convento adjacente à Basílica que pôde falar com um canal de televisão da Sardenha, disse quepara ela "o perigo maior parece ter passado". "Estamos bem e somos otimistas, com a ajuda de Deus, o perigo maior parece ter passado", disse a irmã Caterina Sulcis, entrevistada por uma emissora de Cagliari. No entanto, as reservas de alimentos e água estão seesgotando. Os cerca de 200 palestinos acampados na Basílica,entre eles dois meninos de 13 e 14 anos, não têm o que comer,conta um monge. Há dois feridos que precisam de cuidadosmédicos. "Também nós não temos nada mais- disse o padre Faltas - hoje não comemos". A pequena cidade-fantasma, de ruelas que se entrecruzame sobem pelas colinas, com casas de pedras brancas trazidas deHebron, "é a imagem da desolação", disse um jornalistaamericano. Belém está devastada pelos incursões israelenses, não hárua que se tenha salvado: escombros por todos os lados, faróisarrancados, automóveis destruídos pelos tanques militares. Apopulação está escondida em suas casas, mas mesmo assim não está segura. Um homem de 45 anos foi baleado enquanto falava pelocelular em seu apartamento, conta o prefeito Nasser, refugiadoem sua casa depois que os israelenses ocuparam a sede daPrefeitura e detiveram algumas pessoas. Os israelenses vasculharam todas as casas, em busca decombatentes da intifada que há 18 meses castiga Israel comataques suicidas. Muitas casas foram destruídas, contam os jornalistas queconseguiram circular durante uma hora entre as ruínas da que erauma das mais fascinantes cidades da Palestina. Até hoje, disse o prefeito, foram confirmados 12 mortose pelo menos 30 pessoas feridas. Um médico do hospital de Belém, Peter Qumri, confirma a informação, mas acrescenta que só quatro feridos conseguiram chegar ao hospital, porque a circulação de ambulâncias é limitada. "Os israelenses nos impedem de chegar até os feridos e os quatro que socorremos ontem precisaram ser escondidos sob os cadáveres que nos haviam autorizado a recuperar", disse Qumri.

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