Allison Shelley/Reuters
Allison Shelley/Reuters

Tensão no Haiti pode causar nova onda de violência

Resultados eleitorais inconclusivos agravam a instabilidade política do país

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

PORTO PRÍNCIPE Quem entra no QG da campanha de Jude Celestin, candidato governista à presidência do Haiti, encontra um casarão verde e amarelo vazio, semidestruído. Ao bater palmas, duas cabeças desconfiadas surgem do segundo andar. São seguranças, um deles com uma espingarda calibre 12 apoiada no ombro, à espera de um novo ataque ao local.

No dia da divulgação dos resultados do primeiro turno, no mês passado, uma turba partidária do cantor Michel Martelly - de acordo com a apuração haitiana, o terceiro na corrida presidencial - invadiu, saqueou e queimou o comitê de Celestin.

"Eu estava com esta pistola aqui, mas pulei pela janela. Era muita gente", diz o segurança Ulysse Isaac, de 27 anos, já com a pistola empunhada. Georges Laurent, de 28 anos, que carrega a espingarda, mostra as paredes queimadas, as janelas estraçalhadas e as portas arrombadas pelos partidários de Martelly.

Foram levados do QG material de campanha, ar-condicionado, geladeira, soquetes, fios de cobre e dinheiro. O casarão havia saído intacto do terremoto, há um ano, mas ardeu com os coquetéis molotov dos eleitores em novembro. "Eles nos disseram para ficar esperando aqui, caso voltassem", diz Laurent.

Celestin será eliminado do segundo turno, caso o presidente haitiano, René Préval, acate as conclusões do relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em seu lugar, com uma ínfima vantagem de 0,3% dos votos, Martelly decidiria a eleição com a candidata mais votada, a ex-primeira-dama Mirlande Manigat.

"Se tirarem Celestin, será o novo terremoto", promete aos berros Elvetus Jean-Baptiste, de 62 anos, funcionário do Centro Nacional de Equipamento (CNE), agência estatal de construção, há anos chefiada pelo candidato governista. No tremor, Jean-Baptiste, um senhor baixo, perdeu o segundo andar de sua casa, reconstruído com a "doação" do político e diretor de estatal.

"É Celestin até o fim", grita uma operadora de rolo compressor que escutava a conversa. "Vamos para as ruas, contra a OEA e a ONU, que querem vender o país para os brancos com Martelly na presidência", diz uma secretária. Sentada em seu escritório, uma das diretoras do CNE diz que ali "não se faz política", embora ela tenha pendurado um broche de Celestin na roupa e um retrato do candidato sorridente na parede.

Comissão. O relatório interamericano entregue na quinta-feira é o novo capítulo de um processo eleitoral cada vez mais duvidoso. Cerca de três quartos dos haitianos não foram às urnas no primeiro turno, taxa de abstenção recorde na história do continente americano, segundo o centro Center for Economic and Policy Research, de Washington.

Diplomatas e analistas concordam que um governo com legitimidade é o único caminho para uma reconstrução sustentável do país. No entanto, não há dúvidas de que houve fraude em grande escala na votação de novembro.

Mark Weisbrot, diretor do instituto de Washington, acusa a comissão da OEA de ser "parcial". Diante das irregularidades em massa da eleição haitiana, defende Weisbrot, é impossível concluir a posteriori que Martelly obteve 0,3% mais votos do que Celestin. "Qualquer relatório objetivo reconheceria isso", afirma.

Em condição de anonimato, um diplomata que atua no Haiti afirmou que o processo eleitoral já começou contaminado, porque dele foi excluído o partido Lavalas, do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide - de acordo com vários analistas, a maior força política do país. A comunidade internacional também tem um candidato "preferido" na corrida presidencial: Manigat, mulher e professora, que "polarizaria menos" a sociedade haitiana, segundo o diplomata.

Sob o temor de que a eliminação de Celestin cause novamente depredações e saques, como muitos partidários do candidato governista ameaçam, autoridades internacionais tentam evitar o pior. O embaixador do Brasil em Porto Príncipe, Igor Kipman, foi incumbido de passar uma mensagem aos três principais candidatos na disputa durante uma reunião com assessores dos políticos. "A comunidade internacional não tolerará nenhum tipo de violência."

Ao Estado, o comandante militar da Missão da ONU para a Estabilização do Haiti (Minustah), o general brasileiro Paul Cruz, afirmou ter tomado medidas adicionais para evitar uma nova onda de violência. "Acompanhamos de maneira mais cerrada a evolução da situação para nos anteciparmos aos acontecimentos", explicou. Todos os batalhões da intensificaram as patrulhas.

Em Porto Príncipe, porém, várias pessoas afirmam que o resultado da eleição trará novos enfrentamentos. Diante do prédio da empresa estatal de construção, os partidários de Celestin, prestes a ser eliminado do segundo turno, prometem não aceitar passivamente a derrota. "A coisa vai esquentar", afirmam.

Fim de mandato. O atraso na eleição pode criar uma situação delicada, pois muitos afirmam que, de acordo com a Constituição, o mandato de Préval termina no dia 7. Outros atores na crise haitiana - incluindo o Itamaraty - sustentam que o presidente tem legitimidade para governar até o dia 14 de maio, exatos cinco anos após sua posse. Préval é unanimemente hostilizado pelos haitianos, que agora passaram a associá-lo ao terremoto e à epidemia de cólera. Por todas as partes em Porto Príncipe há pichações de "Abaixo Préval".

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