Tensão política afeta títulos argentinos

Em meio a disputas entre Cristina e a mídia, banco americano aconselha clientes a vender bônus da dívida pública

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

As tensões políticas internas da Argentina levaram o banco de investimentos JP Morgan a aconselhar seus clientes a vender títulos da dívida pública do país. De acordo com a instituição, além da redução do crescimento da economia mundial, o cenário político argentino tem se complicado mais nos últimos dias.

A recomendação foi feita em um momento complicado no qual se intensificam os embates entre o governo da presidente Cristina Kirchner e a mídia do argentina. Por isso, o banco americano recomendou aos investidores que reduzam a exposição vendendo os títulos Boden 2015.

Ontem, o ex-presidente Néstor Kirchner criticou a oposição, aumentando ainda mais o clima de tensão. "É a velha máquina de impedir", afirmou Kirchner, que ainda fez um apelo para que se acabe a "ditadura midiática" e se inicie "a primavera da liberdade de expressão".

Empresários e líderes da oposição afirmaram nos últimos dias que a insegurança jurídica cresce na Argentina, especialmente por causa do persistente "ruído político" provocado pelo confronto do governo com os dois principais jornais do país, o Clarín e o La Nación.

Desde 2008, a presidente Cristina acusa ambos os jornais de estar por trás de um suposto "golpe de Estado" contra seu governo, em uma hipotética aliança com a oposição e o setor rural.

Referindo-se às recentes medidas de Cristina contra as empresas de mídia, o presidente da Corte Suprema de Justiça, Ricardo Lorenzetti, alertou: "Cada vez que há um conflito, mudam as regras do jogo, fato que cria custos excessivos."

O chefe do gabinete de ministros, Aníbal Fernández, retrucou ontem as afirmações de empresários e analistas econômicos sobre a falta de segurança jurídica na Argentina.

"O país é excelente para se fazer negócios", disse Fernández, braço direito da presidente na área política. Segundo o ministro, os empresários que alertam sobre a falta de segurança "não representam a maioria".

Suspensão. A tensão no cenário político aumentou após a decisão do governo de suspender a licença da Fibertel - a companhia de internet do Grupo Clarín que atende 25% dos usuários de internet do país - na quinta-feira da semana passada. O ministro do Planejamento Federal foi categórico, afirmando que a Fibertel "não existe mais". Os clientes da companhia têm um prazo de 90 dias antes de ficar sem internet.

A situação piorou na terça-feira, quando Cristina anunciou que enviaria ao Parlamento um projeto de lei para declarar o papel de jornal de "interesse público", de forma a regular a produção, o preço e a comercialização do produto. De quebra, acusou o Clarín e o La Nación de terem comprado a Papel Prensa - a principal fábrica de papel de jornal no país - nos primeiros meses da ditadura graças a torturas aplicadas por militares nos antigos donos da companhia.

Ontem, o governo havia iniciado um processo que poderia levar à suspensão das licenças de funcionamento da Cablevisión, a companhia de TV a cabo do Grupo Clarín. Se o processo avançar, o governo poderia determinar o fim da licença da Cablevisión em 11 cidades, entre elas Buenos Aires.

Desde de 19 de agosto - dia do anúncio do cancelamento da licença da Fibertel - até ontem, o índice de risco do país subiu de 693 pontos básicos para 776.

OEA. Todos os blocos dos partidos da oposição na Câmara de Deputados - menos o esquerdista Projeto Sul - denunciaram em conjunto à Organização dos Estados Americanos (OEA) os ataques à imprensa feitos pelo governo Kirchner.

Os parlamentares pediram à OEA que envie em breve uma missão à Argentina para analisar de perto "as contínuas agressões sofridas pelos jornalistas" por parte do governo de Cristina Kirchner.

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