Tensão sectária em Mianmar ameaça uma frágil estabilidade

Confronto entre budistas e muçulmanos trouxe lei marcial ao centro do país

SOLLY BOUSSIDAN , ESPECIAL PARA O ESTADO / RANGUM, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2013 | 02h03

No dia 22, dezenas de mortes decorrentes de confrontos causados pela perseguição de budistas, maioria em Mianmar, contra a minoria islâmica do país fizeram com que seu governo impusesse um estado de emergência em Meiktila, onde ao menos 40 pessoas perderam a vida - segundo a emissora americana CNN. A tensão sectária, porém, não deixou de se intensificar e, na quarta-feira, as autoridades determinaram toques de recolher em Gyobingauk, Okpo e Minhla, numa tentativa de evitar que mesquitas e casas de muçulmanos fossem incendiadas.

Mas, após quase 50 anos de isolamento internacional e uma cruel ditadura militar, a maior nação do Sudeste Asiático começa a se abrir politicamente, escancarando suas portas para investimentos estrangeiros e turismo. Mas, enquanto Aung San Suu Kyi, a mais emblemática dissidente do regime que tomou o poder em 1962, reforça seu apoio às Forças Armadas de Mianmar, o governo eleito do presidente Thein Sein, primeiro civil a governar o país desde que a junta militar assumiu há quase meio século, tenta controlar a tensão sectária com soldados nas ruas.

O atual momento, de euforia e crescimento desordenado, tem como principal gargalo uma infraestrutura deficiente, com décadas de atraso em relação aos demais países da região, além de uma cultura que desconhece o empreendedorismo privado. Feridas sociais provocadas por décadas de repressão, violência étnica e abusos dos direitos humanos permanecem abertas, dificultando o desenvolvimento nacional e a tarefa de se forjar uma democracia - cujos limites, atualmente, permanecem determinados pelos militares do país.

A ditadura levou o Ocidente a impor sanções severas sobre Mianmar. O principal partido de oposição, a Liga Nacional para a Democracia (LND), liderado pela Nobel da Paz Suu Kyi, foi duramente reprimido desde sua fundação, em 1988. A legenda foi impedida de formar um governo, apesar da vitória na votação de 1990 - primeira eleição democrática em Mianmar desde a década de 60. E a ativista cumpriu prisão domiciliar por mais de 16 anos. Milhares de opositores foram presos, torturados e levados a campos de trabalho forçado. Pessoas comuns não ousavam expressar apoio à oposição publicamente por temer uma possível delação.

O clima no país, no entanto, mudou radicalmente desde 2010. "Um dos principais produtos que oferecemos hoje é um passeio político pelas ruas de Rangum, onde levamos turistas para ver a sede da LND e a casa onde Aung San Suu Kyi esteve presa. Hoje podemos falar sobre qualquer assunto sem medo", disse Zaw Htun, um operador turístico especializado em pacotes para estrangeiros.

As dezenas de camelôs das calçadas diante do mercado Bogyoke Aung San - um enorme bazar cujo nome homenageia o pai da líder oposicionista, tradicional herói da independência de Mianmar em relação à Grã-Bretanha -, no centro da cidade, parecem corroborar o guia. Os vendedores sorriem facilmente, com seus dentes avermelhados pelo hábito local de mascar folhas de bétel. Xícaras, camisetas, calendários, pôsteres, broches e quadrinhos vermelhos com o rosto estampado de Suu Kyi e o símbolo da LND colorem o local. Folhinhas da ex-presa política ao lado do presidente americano, Barack Obama, são onipresentes. Ao redor da cidade, é praticamente impossível encontrar um táxi ou um hotel que não possua pelo menos um adesivo com o emblema da LND.

Analistas políticos e a população ainda estão surpresos e debatem as motivações por trás da decisão da junta militar de convocar um referendo constitucional, em 2008, prometendo uma "redemocratização calcada na disciplina". Desde 2010, mais de 200 presos políticos foram libertados e anistiados, entre eles Suu Kyi, que foi eleita parlamentar nas eleições de abril de 2012. As votações de 2010 e 2012 levaram pela primeira vez partidos de oposição ao poder e obtiveram para a LND 43 assentos, dentre os 45 então disponíveis - o Parlamento birmanês é composto por 664 cadeiras divididas em duas Câmaras.

Mudança política. Para um país que em 2007 reprimiu com violência manifestantes liderados por monges budistas que protestavam contra a eliminação de subsídios sobre combustíveis, na chamada "Revolução de Açafrão", a guinada na direção da democracia é significativa e não passou despercebida no restante do planeta.

A ex-secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton visitou o país em novembro de 2011 - num sinal claro da disposição americana de reconhecer as mudanças no país asiático. Em maio de 2012, o governo de Washington afrouxou algumas das restrições impostas sobre investimentos e fluxos de capital em Mianmar e fez com que a nação se tornasse membro da Iniciativa do Baixo Mekong, um grupo formado por outras quatro nações do Sudeste Asiático para promover o desenvolvimento local com auxílio dos EUA.

Por fim, o reconhecimento máximo veio na forma de uma curta visita de Obama a Rangum, em novembro. A primeira de um presidente americano por Mianmar na história durou seis horas e foi repleta de simbolismo. Obama encontrou-se com o presidente Thein Sein e seguiu para uma entrevista coletiva ao lado de Suu Kyi, encerrando a visita com um pronunciamento acompanhado por estudantes da Universidade de Rangum, no qual elogiou "o progresso já obtido", mas deixou clara a necessidade de "mais avanços". E, em um gesto diplomático, referiu-se ao país pelo nome de Mianmar - a administração americana tradicionalmente usa a denominação com que os britânicos batizaram o país na época colonial, Birmânia, que foi alterada oficialmente pela junta militar na década de 80.

O gesto dos americanos foi rapidamente seguido pelos governos de Austrália, Canadá e da União Europeia. A popularidade recém-adquirida fez com que o país deixasse, relativamente, a condição de pária.

Um dos primeiros sinais de mudanças veio na forma de novos voos diretos partindo de aeroportos de países distantes, como Alemanha e Catar. A ANA, segunda maior empresa aérea do Japão, lançou em outubro os primeiros voos diretos entre Tóquio e Rangum em mais de uma década, operados, experimentalmente, em aeronaves equipadas apenas com assentos de classe executiva - segundo analistas econômicos, um indício do novo fluxo de homens de negócio japoneses ao país.

A demanda por imóveis adequados para abrigar expatriados de volta ao país e escritórios explodiu em Rangum nos últimos dois anos. Aluguéis de residências diplomáticas e apart-hotéis aumentaram em até 400% - e seus preços saltaram de uma média de US$ 2,5 mil mensais, em 2010, para cerca de US$ 10 mil ao mês. Diversas agências da ONU ocupam três andares inteiros do Hotel Trader's, um dos mais tradicionais no centro de Rangum, por não conseguir encontrar instalações adequadas para abrigá-las.

De acordo com o Myanmar Times, principal jornal de língua inglesa do país, o preço médio do aluguel comercial na cidade está em US$ 50 por metro quadrado e deve duplicar este ano, atingindo patamares equivalentes aos de Nova York e Pequim.

A velocidade das mudanças política e econômica atraiu tantas empresas e governos estrangeiros que fez com que em apenas um ano Rangum saltasse da 70.ª para a 35.ª posição no ranking de custo de vida mundial, superando Paris e Milão entre as cidades mais caras do mundo, em 2012, segundo a consultoria Mercer.

Dezenas de organismos internacionais e ONGs abriram representações no país nos últimos meses, assim como escritórios de multinacionais de todas as áreas. Houve também um aumento exponencial no número de turistas estrangeiros em visita a Mianmar. O governo birmanês não possui dados consolidados, mas estimativas afirmam que o número de visitantes saltou de aproximadamente 300 mil, em 2011, para cerca de 1 milhão no ano passado.

O frenesi desenvolvimentista atinge todos os campos e regiões de Mianmar. Estatais chinesas estão empreendendo alguns dos principais projetos de mineração e de energia no norte do país, com investimentos de mais de US$ 3 bilhões. A Índia participa de um plano de US$ 120 milhões para a construção de um porto de águas profundas em Sittwe, no noroeste birmanês, para facilitar o transporte de cargas na Baía de Bengala. Empresas europeias, coreanas, japonesas e americanas - de infraestrutura, finanças, transporte, comunicações e entretenimento - possuem escritórios e projetos ativos centrados principalmente no eixo entre Rangum e Mandalay, considerada a segunda maior cidade do país.

Algumas empresas brasileiras também perceberam as oportunidades de fazer negócios em um dos últimos mercados inexplorados do mundo. A Embraer, até há pouco reticente em agendar reuniões com representantes de companhias aéreas birmanesas em virtude das sanções americanas que afetavam componentes de suas aeronaves, acabou de acertar o leasing de um jato de última geração para a Air Bagan, uma das empresas aéreas que mais cresce localmente.

Segundo o chefe da missão do Banco de Desenvolvimento da Ásia (BDA), em Mianmar, Putu Kamayana, porém, as principais dificuldades decorrem do isolamento de quase 50 anos. "Essas dificuldades são esperadas. A nação necessita de mais tempo para se tornar competitiva."

A Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), composta por dez países da região, aprovou por unanimidade que Mianmar presida pela primeira vez a organização em 2014. "Há muitas razões para sermos otimistas em relação a Mianmar. O comprometimento com o desenvolvimento e a transição democrática nos mais altos níveis é enorme. O país é rico em recursos, está em um local estratégico, conta com uma população enorme, jovem e pronta para ser treinada. Nunca um governo embarcou em reformas políticas e administrativas tão amplas quanto as que estamos vendo aqui. Temos realmente um caso único", disse Kamayana.

Mianmar definitivamente tem pressa em recuperar o tempo perdido com a ditadura. Os sorrisos vermelhos de surpresa ao avistar um estrangeiro podem não durar muito mais tempo.

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