Tenso, governo de Pequim assiste a levante árabe

Crise no Oriente Médio faz PC chinês debater 'gestão social' e medidas contra interferências de ''forças ocidentais hostis''

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2011 | 00h00

Sob o impacto da sucessão de revoltas contra regimes autoritários no mundo árabe, um dirigente do Partido Comunista chinês afirmou ontem que o governo de Pequim enfrenta um período turbulento de instabilidade doméstica, agravado pela atuação de "forças ocidentais hostis" que tentam interferir em assuntos internos da China e dividir o país.

Desde o fim da semana passada, vários líderes comunistas alertaram para o aumento de conflitos no país, defenderam uma melhor "gestão social" para administrá-los e ressaltaram a necessidade de intensificar a censura na internet.

No sábado, o presidente Hu Jintao disse em seminário que reuniu toda a cúpula do Partido Comunista que a China ainda está em um estágio de desenvolvimento no qual "muitos conflitos" devem emergir e reconheceu que a capacidade do governo de solucioná-los continua "frágil". No dia seguinte, o ministro responsável pela segurança pública, Zhou Yongkang, defendeu no mesmo encontro a necessidade de solução dos conflitos em seu estágio inicial e bateu novamente na tecla de "melhor gestão social".

Ontem, a revista Outlook Weekly, editada pela agência oficial de notícias Nova China, trouxe declarações do vice-secretário-geral do comitê de assuntos políticos e legislativos do Partido Comunista, Chen Jiping, segundo o qual os conflitos que "afetam a estabilidade social" continuarão a existir no futuro previsível.

Para Chen, "forças ocidentais hostis" usam o pretexto de defesa de direitos para interferir em assuntos internos da China. O dirigente também ressaltou a necessidade de resolver os conflitos em seu estágio inicial e disse que o governo passará a avaliar seus projetos e políticas não apenas sob a ótica econômica, mas levando em consideração seu impacto social.

Nas declarações tornadas públicas pela imprensa oficial chinesa, nenhum dos dirigentes fez referência aos protestos pró-democracia no mundo árabe, que já levaram à queda dos governos da Tunísia e do Egito. Mas desde o início das manifestações, em janeiro, a apreensão dos líderes comunistas foi evidenciada pela censura na internet a termos relativos às demonstrações e o estrito controle da cobertura dos eventos.

No mesmo discurso de sábado, Hu disse que o governo deve aumentar o controle sobre a "sociedade virtual" com o objetivo de melhor "guiar a opinião pública" na internet - eufemismo para a censura. A China tem um dos mais sofisticados mecanismos de controle das informações online e todos os sites que tiveram papel relevante na organização de manifestantes no Egito são bloqueados no país, incluindo Facebook, Twitter e YouTube.

Muitos chineses usam ferramentas para contornar a censura e ter acesso. Algumas dezenas de ativistas têm contas no Twitter, por exemplo, mas o número de internautas que consegue escalar a "Grande Muralha de Fogo", como é chamada a censura, é reduzido.

O criador da Grande Muralha de Fogo, Fang Binxing, afirmou que o mecanismo precisa ser aperfeiçoado para impedir o surgimento de brechas e fechar as já existentes. Fang admitiu em entrevista a um jornal oficial chinês que utiliza seis diferentes VPNs (Redes Virtuais Privadas, na sigla em inglês), um dos mais populares mecanismos para escapar da censura. Mas ressaltou que só lança mão da ferramenta para "testar qual lado ganha".

A apreensão dos líderes chineses aumentou no fim de semana, com a convocação anônima de um protesto inspirado nas manifestações dos países árabes. O apelo para uma "Revolução do Jasmim" chinesa teve pouca repercussão, tanto pela censura quanto pela ausência da mesma disposição de questionar o regime vista em países como Tunísia, Egito e Líbia.

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