EFE/EPA/VALDA KALNINA
EFE/EPA/VALDA KALNINA

Tensões na Ucrânia criam desafio para líderes europeus próximos a Putin

Presidentes e premiês de países como Bulgária e Hungria tentam equilibrar posicionamento da aliança militar com seus próprios interesses na Rússia

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2022 | 12h07
Atualizado 31 de janeiro de 2022 | 12h19

Enquanto as negociações diplomáticas entre Bruxelas, Moscou e Washington não avançam na busca por uma desescalada das tensões na Ucrânia, a crise no Leste europeu gera uma situação delicada para líderes de países-membros da Otan que mantém uma relação próxima com Vladimir Putin.

Presidentes e primeiros-ministros de países como Bulgária, Hungria e Polônia tentam se equilibrar entre atender às demandas da aliança militar ocidental e defender seus próprios interesses com a Rússia - o que envolve fornecimento de energia e material bélico, laços históricos e mesmo retórica política semelhante.

Localizada às margens do Mar Negro e considerada o satélite mais fiel da União Soviética durante a Guerra Fria, a Bulgária é um exemplo onde a tentativa de equilibrar as demandas russas e ocidentais tem exigido mais habilidade política no cenário interno. Com um presidente pró-Rússia - Rumen Radev, que provocou embaraço com a UE ao declarar que a Crimeia é um território atualmente russo, em novembro do ano passado - e um primeiro-ministro pró-UE - Kiril Petkov -, o país tem passado mensagens por vezes confusas na tentativa de marcar posição.

Enquanto Petkov tem insistido na necessidade de um "diálogo construtivo" para que haja uma desescalada das tensões, o ministro da Defesa do país, Stefan Yanev, afirmou que vai propor à Otan a criação de um batalhão nacional com até um milhão de soldados em seu território, que seria auxiliado por um número menor de enviados militares de outros países do bloco - uma resposta direta às demandas de Moscou sobre a retirada de tropas da Otan de países pertencentes ao antigo Pacto de Varsóvia.

No caso da Bulgária, a reticência do governo de Sófia tem aspectos pragmáticos. Quase todo gás natural e petróleo consumido na Bulgária vem da Rússia, o que torna a boa relação com Moscou fundamental para garantir a segurança energética do país. Além disso, é o Kremlin quem costuma ceder técnicos para a manutenção de equipamentos militares do país, que utiliza majoritariamente tecnologia produzida no período soviético.

Em outras partes da Europa, chefes de governo localizados na "linha-de-frente" da União Europeia com a Rússia também fugido de um discurso puramente alinhado aos Estados Unidos, na tentativa de manter as relações estratégias com Moscou. No fim da semana passada, os primeiros-ministros de Hungria e Polônia, Viktor Orbán e Mateusz Morawiecki, firmaram um documento redigido por líderes europeus ultraconservadores defendendo a cooperação em matéria de defesa ante às ameaças russas à segurança do bloco.

Os signatários da declaração disseram considerar necessário o trabalho "para garantir que as nações da Europa atuem solidariamente diante da ameaça de agressão externa", além dealertar para uma "ineficácia da diplomacia" da UE e, nesse sentido, exigir que cada nação tenha uma "voz forte e solidária" para preservar "a paz, a integridade territorial e a inviolabilidade das fronteiras".

Apesar de assinar o manifesto - com sinalizações claras a uma potencial saída militar -, o premiê hungaro, Viktor Orbán deu declarações se dizendo a favor "da paz, da desescalada e das negociações" diante da crise ucraniana, mas recusou a ideia de que a solução para o conflito esteja em uma negociação estratégica entre Rússia e EUA, sem implicações aos europeus - Washington vem liderando as principais conversas com o Kremlin até aqui. 

"Temos que mobilizar nossas energias para desacelerar o processo [de crise], negociar e encontrar um caminho para a paz", disse Orbán, que tem um encontro de cúpula agendado com Putin na terça-feira.

Já o premiê polaco - cujo país faz fronteira com a Ucrânia e com Belarus, para onde a Rússia tem enviado um grande contingente militar - voltou a acusar que os russos estão ameaçando a integridade da Ucrânia, e defendeu a necessidade de tratar a soberania de cada país com valor. "Espero que a voz do nosso grupo também seja ouvida pelo Kremlin", afirmou Morawiecki.

No entanto, após o apelo por atenção do Kremlin, a Polônia anunciou nesta segunda-feira, 31, que vai suprir a Ucrânia com munição defensiva e demonstrou preocupação com o avanço das tropas russas em Belarus./ EFE e REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.