Sputnik/Mikhail Klimentyev/Kremlin via Reuters
Sputnik/Mikhail Klimentyev/Kremlin via Reuters

Tensões na Ucrânia: Em conversa com Macron, Putin diz que Otan ignora principais exigências russas

O russo reforçou sua exigência de que a Otan não se expanda para próximo de suas fronteiras, mas prometeu manter as conversas diplomáticas com o francês

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2022 | 14h26

MOSCOU - O presidente russo, Vladimir Putin, reiterou seu apelo por "garantias de segurança duradouras e juridicamente vinculativas" dos Estados Unidos e da Otan em um telefonema nesta sexta-feira, 28, com seu colega francês, Emmanuel Macron, disse o Kremlin, depois que um alto funcionário russo ameaçou que a Rússia “retaliaria” se suas demandas não forem atendidas.

Putin alertou Macron que a expansão da Otan era “inaceitável” para a Rússia, dizendo que as respostas dos Estados Unidos e da Otan às suas demandas não levavam em conta as principais preocupações de segurança da Rússia, disse o Kremlin.

Tanto Washington quanto a Otan descartaram o fim da política de portas abertas a novos membros nas respostas a Moscou na quarta-feira, 26. Mas Putin prometeu a Macron que estudaria os documentos cuidadosamente e concordou em manter contato próximo com o presidente francês, disse o Kremlin, deixando a porta aberta para novos esforços diplomáticos.

A busca de Macron por uma solução diplomática ocorreu em meio ao alarme ocidental de que Putin pode lançar um novo ataque à Ucrânia após um enorme acúmulo militar russo perto da Ucrânia.

Putin repetiu algumas das outras exigências importantes da Rússia, em especial a de que a Otan remova seu equipamento militar e forças de ex-países soviéticos e concorde em não instalar mísseis perto das fronteiras da Rússia, disse o Kremlin.

Não havia sinais de que Macron tenha conseguido persuadir Putin a diminuir ou retirar as forças e equipamentos russos concentrados perto da Ucrânia. Após a ligação, Putin se reuniu com membros do Conselho de Segurança russo.

Rússia descarta guerra

Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que Moscou “retaliaria” se suas exigências de suspensão da expansão da Otan não fossem atendidas. Segundo ele, a decisão será tomada por Putin.

Falando na rádio russa, Lavrov descartou uma guerra "se depender da Federação Russa", mesmo quando os navios de guerra do país realizavam exercícios no Mar Negro em meio a um maciço acúmulo militar perto da Ucrânia.

Mas ele disse que "não há espaço para concessões" nas principais demandas da Rússia, que incluem um ultimato de que os Estados Unidos e a Otan impeçam permanentemente a Ucrânia de ingressar na aliança ocidental. Washington e seus aliados rejeitaram essa exigência.

Enquanto as autoridades americanas alertam que a Rússia pode atacar a Ucrânia "a qualquer momento", Putin tem a opção de aceitar os poucos compromissos oferecidos pelo Ocidente ou lançar uma guerra que devastaria a Ucrânia e desencadearia sanções abrangentes destinadas a paralisar a economia russa.

A crise é um grande teste para a presidência de Biden, já que Putin desafia o domínio de Washington na segurança transatlântica, desviando os olhos do governo das principais preocupações de segurança na China.

As conversas diplomáticas entre o Ocidente e a Rússia sobre a crise ucraniana não conseguiram convencer o Kremlin a diminuir a escalada, com autoridades russas repetindo que Moscou não tem planos de atacar a Ucrânia. Autoridades francesas disseram, antes da ligação, que Macron buscaria esclarecimentos de Putin sobre o objetivo da escalada militar perto da Ucrânia.

A situação é "muito séria", disse o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian , na rádio RTL na manhã de sexta-feira. “Mas, no momento, acreditamos que o diálogo ainda pode se desenvolver e esse é o objetivo da conversa que o presidente Macron tem hoje com o presidente Putin.”

Dispostos a dialogar

Lavrov disse que a Rússia está disposta a realizar uma reunião bilateral com o presidente ucraniano Volodmir Zelenski na Rússia - não a reunião trilateral com o presidente Biden presente que Zelenski pediu recentemente.

Ele disse que qualquer reunião se limitaria às relações bilaterais e descartou discussões sobre a guerra no leste da Ucrânia, onde a Rússia apoia separatistas pró-Kremlin desde 2014 e emitiu mais de 500 mil passaportes para ucranianos nos últimos anos.

Lavrov disse que as sanções ocidentais destinadas a cortar a Rússia do sistema financeiro mundial seriam equivalentes a cortar todos os laços diplomáticos.

Havia pouco otimismo de que o telefonema de Macron faria alguma diferença decisiva - ao longo de seu mandato de cinco anos, suas iniciativas diplomáticas até agora produziram resultados limitados. Ainda nesta semana, as negociações de quatro vias envolvendo Paris, Berlim, Moscou e Kiev terminaram sem um acordo, embora as partes tenham concordado em retomar as conversas cara a cara em duas semanas.

Na quinta-feira, as autoridades dos EUA novamente buscaram consolidar seu apoio na Europa. O secretário de Defesa Lloyd Austin fez seu primeiro telefonema a seu colega na Romênia, um membro da Otan perto da Ucrânia. E, em um telefonema com o presidente ucraniano Zelenski, o presidente Biden prometeu mais apoio financeiro e diplomático, enquanto reafirmava que Washington “responderia decisivamente se a Rússia invadir ainda mais a Ucrânia”, de acordo com umcomunicado da Casa Branca.

Zelenski expressou esperança de que os Estados Unidos tomem mais medidas para aumentar a cooperação em defesa, disse seu gabinete.

Uma falha notável na resposta ocidental inclui interesses energéticos divergentes entre a Alemanha e outros membros da União Europeia. O continente depende da Rússia para cerca de 40% de suas necessidades de gás natural, e Berlim vem trabalhando para instalar o Nord Stream 2, um importante gasoduto que transportaria gás russo para a costa alemã. Muitos temem que a ativação do oleoduto aumente a dependência alemã da Rússia.

E o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, disse na sexta-feira que queria aumentar o fornecimento de gás para seu país da Rússia, segundo a Reuters. Budapeste é membro da Otan, embora Orban tenha laços mais estreitos com Putin do que outros líderes da aliança./W.POST

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