NINA KRUSHCHEVA, PROJECT SYNDICATE

22 de agosto de 2015 | 02h02

Passaram-se 24 anos desde que integrantes da linha dura soviética, desesperados para conter a nascente transição democrática do país, prenderam Mikhail Gorbachev e decretaram a lei marcial. Em resposta, manifestantes lotaram as ruas de Moscou e outras cidades da União Soviética. Mas o golpe fracassou e a União Soviética entrou em colapso logo em seguida.

Apesar das condições econômicas atrozes nos meses derradeiros da União Soviética, as pessoas já conseguiam sentir o ar de liberdade e, ao contrário de hoje, mostraram-se dispostas a lutar por elas. Nos primeiros anos da transição democrática, muitos eleitores não sucumbiram à tentação de eleger extremistas. Ao contrário, escolhiam os candidatos mais sensatos.

Os russos, por exemplo, rejeitaram Vladimir Jirinovski, nacionalista do estilo de Donald Trump e antissemita, e preferiram Boris Yeltsin, que havia enfrentado os tanques durante o golpe fracassado de 1991.

Mas, à medida que a vida se tornou mais fácil, cada vez mais os eleitores vêm elegendo novos autocratas que prometem "proteger" as pessoas desta ou daquela ameaça. O presidente russo, Vladimir Putin, lidera esse grupo. E a tendência extrapola os países comunistas e inclui, por exemplo, o presidente turco, Recep Erdogan.

O filósofo francês Jean-François Revel observou a ascensão de ditaduras violentas no século 21, impulsionadas por uma "tentação totalitária". O que estamos presenciando hoje é algo um pouco menos sinistro que eu chamaria "tentação autoritária", mas que é uma ameaça crescente não só para a democracia como também para a estabilidade global. Afinal, a única coisa que os atuais autocratas têm em comum com predecessores totalitários é o desprezo pelo Estado de direito, interna e internacionalmente.

Uma causa dessa mudança na direção do autoritarismo é o fato de muitos países não mais considerarem os EUA um baluarte da democracia e um modelo de estabilidade e prosperidade a ser imitado. A afirmação de Putin de que a democratização na verdade é um complô americano para "conseguir vantagens unilaterais" repercute em muitas sociedades. Os vencedores da Guerra Fria, especialmente os EUA, manifestaram tanta arrogância a ponto de muitos se afastarem deles.

Os ditadores "brandos" que chegaram ao poder, e que o jornalista Bobby Ghosh chamou de democratas autoritários, usaram o sentimento de intranquilidade e alienação para atrair votos. Seus eleitores não querem ser oprimidos, mas desejam estabilidade e soberania nacional - desejos que seus líderes atendem limitando em parte a oposição.

Pelo menos 70% dos russos concordam com Putin de que esse tipo de "democracia administrada" é melhor do que a versão caótica praticada no Ocidente. E mais de 70% dos turcos têm uma opinião negativa dos EUA, que Erdogan responsabiliza pela ascensão da mídia social (segundo ele, a "pior ameaça" enfrentada hoje pela Turquia).

Aqueles líderes que se sentirem tentados pelo autoritarismo fariam bem em lembrar a afirmação de John F. Kennedy no seu discurso em Berlim em 1963: "A liberdade enfrenta muitas dificuldades e a democracia não é perfeita. Mas nunca tivemos de erguer um muro para prender nossa população e impedir alguém de partir. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

NINA KRUSHCHEVA É PROFESSORA NA THE NEW SCHOOL, NY

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