Teorias sobre futebol e política

A Copa demonstra como o esporte reproduz as relações entre povos, culturas e nações

Enrique Krauze, The New York Times/O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2014 | 02h04

A cada quatro anos, o mundo oferece um alívio temporário dos nossos problemas pessoais e nacionais, um mês de imersão na fantasia do confronto ritualístico e indireto conhecido como Copa do Mundo.

Mas, às vezes, o jogo não é um ritual inócuo. Ele incentiva surtos repugnantes de nacionalismo radical, chauvinismo e racismo local e serve como cortina de fumaça de horrores ocultos. Foi o que ocorreu no triunfo argentino em 1978, quando os jogos da Copa do Mundo eram realizados em campo ao mesmo tempo que, numa prisão clandestina próxima, pessoas sequestradas pela junta militar eram torturadas, violentadas e assassinadas. Em 1969, distúrbios depois da rodada de classificação entre Honduras e El Salvador ajudaram a desencadear a chamada Guerra do Futebol. Tensões de natureza econômica eram a verdadeira causa, mas o futebol foi o estopim.

Não há dúvida que confiar o destino de uma nação a 11 jovens disputando uma bola provoca ilusões ridículas. "Por que não dar a cada um deles uma bola e não haverá mais problemas?", indagou certa vez Jorge Luis Borges. Entretanto, neste mundo de violência e discórdia, a Copa do Mundo oferece um parênteses bem-vindo, uma chance de meditar sobre o belo jogo e como ele reflete as relações entre povos, culturas e nações.

Em meu país, o México, o futebol foi importado por mineiros ingleses no final do século 19, mas sua popularidade aumentou de maneira extraordinária nos anos 50 e 60. Antes disso o beisebol era seu mais forte rival, um esporte importado pelas empresas americanas de mineração, petróleo e ferrovias, a maior parte delas localizada na fronteira ao norte, no Golfo do México e na costa do Pacífico. A popularidade do beisebol, contudo, foi prejudicada pelas intenções menos benignas dos EUA. No México, em Cuba, na República Dominicana, Nicarágua, Panamá e outras regiões da América Central, ele foi promovido depois de várias incursões (a partir de 1914) e chegou a representar - pelo menos em parte - a ambígua relação destes países com Washington. Suas populações amavam o jogo, mas odiavam a presença militar dos EUA.

A América do Sul não teve a presença dos fuzileiros navais americanos, nem interesse algum pelo beisebol (exceto na Venezuela). Como o maior enclave de penetração comercial britânica na América Latina, a Argentina e o Uruguai importaram o futebol inglês quase na virada do século 20. Os dois países praticaram o jogo com grande sucesso, imprimindo uma nova ênfase aos dribles, um exemplo de criatividade e movimento que de algum modo se assemelhava ao tango e não tinha nada a ver com o estilo austero e bruto dos ingleses. As origens britânicas do esporte apareciam nos nomes de algumas das grandes equipes: Boca Juniors, Racing, Newell's Old Boys, River Plate (em vez de Río de la Plata).

O Uruguai organizou a Copa do Mundo em 1930 e, em 1950, derrotou o Brasil por 2 a 1, um jogo lembrado no Brasil como "a tragédia do Maracanã". "A derrota no estádio no Rio desencadeou uma onda de suicídios no Brasil, onde o futebol integrou-se plenamente na cultura popular, com o samba e o Carnaval. Mas, com a chegada de Pelé, em 1958, os brasileiros, com seu ritmo incomparável e sua criatividade de jogo, venceram várias Copas do Mundo.

Alguns países andinos - Peru, Equador e Bolívia - abraçaram muito mais tarde o futebol, mas jogam muito bem. O mesmo ocorre com Chile e Paraguai, onde a forte influência das antigas culturas indígenas conferiu vigor e estoicismo ao seu estilo. A Colômbia se assemelhava ao Brasil, ou seja, seus jogadores pareciam dançar sua cumbia clássica com a bola, embora de maneira menos extravagante do que os brasileiros.

A Venezuela continuou sendo fundamentalmente um país do beisebol, embora nos anos mais recentes tenha produzido equipes de futebol nacionais muito boas. Mas onde o beisebol impera na América Latina é difícil desalojá-lo. Lembremos que antes de sonhar em se tornar um líder do novo Terceiro Mundo, Hugo Chávez sonhava em se tornar um grande arremessador da liga profissional de beisebol dos EUA.

No México contemporâneo, a popularidade de todos os demais esportes e espetáculos (beisebol, boxe, futebol americano, tourada e briga de galo) é ínfima quando comparada à do futebol. Cada devoto guarda com carinho suas memórias da Copa do Mundo. Lembro de quando era criança e escutava num rádio de transistores o primeiro gol mexicano em copas na Suécia (1958) e, posteriormente, de ter testemunhado algumas de nossas vitórias de derrotas de partir o coração. E me lembro também - durante a Copa do Mundo de 2006 - de meus filhos sentados num estádio em Nuremberg, onde 25 mil dos 40 mil espectadores eram mexicanos que gritavam "olé" toda vez que a seleção mexicana fazia um passe ofensivo.

Entre as muitas razões para a popularidade do futebol no México há uma que talvez emane de nossa história. Antes da conquista espanhola, os povos indígenas de diferentes regiões do país disputavam um jogo no qual o principal objetivo era empurrar uma duríssima bola de borracha até fazê-la passar por um pequeno aro de pedra inserido verticalmente numa parede. O corpo (principalmente o quadril) era usado como superfície para empurrar a bola, mas nunca as mãos. Assim como ocorre hoje em dia, o jogo era acompanhado por espectadores animados, mas, com frequência, a partida era concluída com o sacrifício ritual de uma das equipes. O jogo era visto como metáfora para uma batalha cósmica entre o sol, a lua e as estrelas.

Os séculos se passaram e, felizmente, a morte não é mais o encerramento das partidas. Mas a grande importância do futebol no México pode ser vista em nossas reações diante da vitória e da derrota: alegria e exultação, ou desespero ao ponto de uma depressão coletiva.

Em todo o México, domingo após domingo, times amadores e semiprofissionais usam espaços vazios (chamados de "llanos") para jogar "fútbol llanero", o equivalente ao futebol de areia nos EUA. Trata-se de uma espécie de bênção social, um momento no qual o tempo e os problemas parecem ser esquecidos.

No nível internacional, o México não marcou gols o bastante. Mas sempre há esperança para o futuro. E, mesmo que o México não chegue muito longe, podemos nos consolar com a possível vitória do Brasil (um time que adoramos desde a época de Pelé) ou da Espanha (cujo campeonato nacional acompanhamos atentamente) ou até da Argentina (país que mandou muitos craques para jogar no México e na Europa).

Mas os mexicanos não comemorariam uma vitória da seleção dos EUA. O Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, em inglês) pode ter aproximado os dois países, mas a simpatia tem limites.

Ainda assim, foi sugerida uma ideia brilhante. Assim como Japão e Coreia do Sul receberam juntos a Copa do Mundo em 2002, por que não propor que nós - EUA e México - organizemos juntos o Mundial de 2026? / Tradução de Terezinha Martino e Augusto Calil 

*Enrique Krauze é historiador, editor da revista literária 'Letras Libres' e publicou o livro 'Redeemers: ideas and power in Latin America'. O artigo foi escrito antes da eliminação da Espanha

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