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Ter um bebê e não poder tocá-lo pelo coronavírus

Vanesa Muro contraiu covid-19 durante gravidez de risco e conta os dias para o fim da quarentena, quando poderá interagir com o filho sem usar luvas

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2020 | 04h00

MADRI - Positiva para o coronavírus, Vanesa Muro ficou separada por 10 dias de seu recém-nascido. Agora em casa com o pequeno Oliver, ela conta os dias para o fim da quarentena, quando poderá beijar e tocar o filho sem luvas.

Não ter contato com a pele da criança para evitar contagiá-lo "é duro", admite Vanesa à AFPTV em sua casa na capital espanhola, epicentro da pandemia na Espanha, com mais de um terço do total de mortes no país.

"Ele agarra seu dedo, coitadinho, e agarra o plástico, não agarra você, mas é um dia a menos. Tenho que pensar desse jeito porque, se não for assim, fico deprimida", explica a mulher de 34 anos.

Vanesa e Óscar Carrillo, também de 34 anos, se preparavam para um parto por cesárea a partir de 16 de março, mas a epidemia de covid-19 acelerou tudo.

A avó de Vanesa, de 87 anos, que ela encontrava todos os dias, apresentou resultado positivo para o coronavírus e faleceu. Com uma gravidez de risco, Vanesa também foi submetida a um exame. Estava infectada.

De maneira imediata, "Óscar me levou (ao Hospital Universitário La Paz) e evidentemente não pôde passar, me deixou na porta da emergência e ali fiquei", relata Vanesa.

Os médicos adiantaram a cesárea. "Foi um acúmulo de sensações, brutal", revela Vanesa, entre o "medo" de contagiar o bebê, a separação do marido e ser atendida por médicos que usavam trajes especiais para evitar uma infecção.

"Aquela foi a hora e meia mais longa da minha vida", confessa Óscar, que não sabia o que acontecia. 

"Foi duro", completa o homem, que também apresentou resultado positivo para o coronavírus.

Oliver nasceu no dia 13 de março, saudável, com 3,6 kg e 50 cm. Imediatamente foi colocado em uma incubadora e isolado. Até apresentar dois resultados negativos para o coronavírus, o bebê não seguiu para o berçário com outros recém-nascidos.

Após 48 horas de recuperação no hospital em um isolamento quase total porque a equipe médica entrava o mínimo possível no quarto por falta de trajes de proteção, Vanesa foi liberada e voltou para casa, mas sem Oliver.

Apenas em 23 de março Vanesa e Óscar conseguiram buscar o bebê, com luvas e máscaras.

"Campeão, vamos para casa agora, você é um boneco", foram as primeiras palavras de Vanesa para o filho em um encontro muito emotivo.

"Foi incrível", afirma o pai. "Foi como se ele nascesse também naquele dia", completa a esposa.

"Foi o momento mais lindo que aconteceu comigo desde que comecei a trabalhar", admite Arantxa Fernández, psicóloga do Hospital Universitário La Paz, um apoio emocional que o casal admite que foi "vital". Arantxa enviava fotos e vídeos de Oliver quando ele estava no hospital.

"Dar um beijo"

Apesar da felicidade com o bebê em casa, os pais admitem que é difícil não ter contato sem proteção. Já passaram os primeiros 14 dias desde que foram diagnosticados com o coronavírus, mas diante da impossibilidade de passar por outro teste que confirme a recuperação, eles devem respeitar mais 14 dias de quarentena por segurança.

"Eu ainda não toquei o meu filho sem as luvas (...) estamos como loucos para que termine (a quarentena) para poder tocá-lo, dar um beijo", afirma Óscar ao lado de Vanesa.

Além disso, os pais de primeira viagem não podem contar com a ajuda familiar. Os sogros de Óscar "moram muito perto, mas por causa do confinamento parece que vivem quilômetros de distância", afirma.

"É duro, mas vai passar. Em breve (Oliver) terá um mês e já vamos sair à rua. Conhecerá os avós, os tios. E tudo isto vai virar um pesadelo que superamos", resume Vanesa. /AFP

 

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