Terá o poder econômico substituído o militar?

Embora existam hoje em dia mais situações em que a força militar é de difícil uso, e às vezes não seja suficiente, ela ainda é uma fonte vital de poder

Oseph S. Nye, Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

Ao fim da Guerra Fria, alguns especialistas disseram que a "geoeconomia" havia substituído a geopolítica. O poder econômico se tornaria a chave do sucesso na política mundial, uma mudança que muitos acharam que conduziria a um mundo dominado por Japão e

Alemanha.

Hoje, alguns interpretam a ascensão da participação da China na produção mundial como uma mudança fundamental no equilíbrio de poder global, mas sem considerar o poder militar.

Eles argumentam que uma potência econômica dominante em breve se tornará uma potência militar dominante, esquecendo que os Estados Unidos foram a maior economia mundial por 70 anos antes de se transformarem em uma superpotência militar.

Há muito que observadores políticos debatem qual é mais fundamental, o poder econômico ou o poder militar.

A tradição marxista situa o econômico como a estrutura subjacente do poder, e as instituições políticas como mera superestrutura, uma suposição compartilhada por liberais do século 19 que acreditavam que a crescente interdependência entre comércio e finanças tornaria a guerra obsoleta.

Mas, apesar de Grã-Bretanha e Alemanha serem as principais parceiras comerciais uma da outra em 1914, isso não impediu uma conflagração que retardou a integração econômica global por meio século.

O poder militar, que alguns consideram a forma máxima de poder na política mundial, requer uma economia próspera. Mas depende do contexto de quais produzem mais poder no mundo de hoje, se os recursos econômicos ou os militares.

Uma cenoura pode ser mais eficiente do que uma vara quando se deseja conduzir uma mula para a água, mas uma arma é mais útil se o objetivo for privar um adversário de uma mula. Muitas questões cruciais, como a estabilidade financeira ou a mudança climática, simplesmente estão fora da competência de forças militares.

Hoje, China e Estados Unidos são muito interdependentes em termos econômicos, mas muitos analistas não compreendem as implicações disso para a política do poder.

É fato que a China poderia colocar os Estados Unidos de joelhos com a ameaça de vender seus ativos em dólares. Mas ao fazer isso ela não só reduziria o valor de suas reservas com o enfraquecimento do dólar, colocaria também em risco a demanda americana por importações chinesas, causando perdas de empregos e instabilidade na China.

Em outras palavras, colocar os Estados Unidos de joelhos poderia perfeitamente deixar a China de cócoras.

Para julgar se a interdependência econômica produz poder é preciso olhar para o equilíbrio de coisas assimétricas. Neste caso, ele se parece a um "equilíbrio de terror financeiro", análogo à interdependência militar da Guerra Fria em que os Estados Unidos e a União Soviética tinham o potencial de destruir-se mutuamente num confronto nuclear.

Em fevereiro de 2010, um grupo de oficiais militares chineses de alta patente, irritado com as vendas de armas americanas a Taiwan, pediu ao governo da China para vender bônus do governo americano como retaliação. Sua sugestão não foi considerada.

Recursos econômicos podem produzir tanto um comportamento de poder brando quanto de poder militar duro.

Um modelo econômico bem-sucedido não só financia os recursos militares necessários ao exercício do poder duro, como podem também atrair outros para imitarem seu exemplo.

O poder brando da União Europeia no fim da Guerra Fria e o da China nos dias de hoje devem muito ao sucesso dos modelos econômicos respectivos da UE e da China.

Uso da força. Os recursos econômicos são cada vez mais importantes neste século, mas seria um erro desconsiderar o papel do poder militar.

Como disse o presidente americano, Barack Obama, ao aceitar o Prêmio Nobel da Paz de 2009: "Precisamos começar a reconhecer a dura verdade de que não erradicaremos os conflitos violentos em nosso tempo de vida. Haverá momentos em que nações - agindo individualmente ou de forma coordenada - acharão o uso da força não só necessário, mas moralmente justificável."

Embora a probabilidade do uso da força entre Estados, ou de ameaças de seu uso, seja mais baixa agora do que em períodos anteriores, o alto impacto da guerra leva atores racionais a comprarem um seguro militar dispendioso.

Se o poder duro da China assustar seus vizinhos, eles provavelmente procurarão essas apólices de seguro, e os Estados Unidos provavelmente serão o principal provedor. Isso nos leva à questão mais ampla sobre o papel da força militar.

Alguns analistas argumentam que o poder militar tem uma utilidade tão restrita que não é mais o parâmetro final de medida. Mas o fato de o poder militar nem sempre ser suficiente para decidir situações particulares não significa que ele tenha perdido toda utilidade.

Embora existam mais situações e contextos em que a força militar é de difícil uso, ela continua sendo uma fonte vital de poder.

Mercados e poder econômico se apoiam em estruturas políticas, que, por sua vez, dependem não só de normas, instituições e relações, mas também da administração de poder coercitivo.

Organização. Um Estado moderno bem organizado é um Estado que detém um monopólio do uso legítimo da força, e isso permite que os mercados domésticos operem.

Internacionalmente, onde a ordem é mais tênue, preocupações residuais sobre o uso coercivo da força, ainda que com baixa probabilidade, podem ter efeitos importantes - incluindo um efeito estabilizador.

Metaforicamente, aliás, o

poder militar provê um grau de segurança que está para a ordem como o oxigênio está para a respiração: pouco notado até se tornar escasso, ponto em que sua ausência domina tudo o mais.

No século 21, o poder militar não terá a mesma utilidade para Estados que teve nos séculos 19 e 20, mas continuará sendo um componente crucial do poder na política mundial. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EX-SECRETÁRIO ADJUNTO DE DEFESA DOS ESTADOS UNIDOS, É PROFESSOR NA UNIVERSIDADE HARVARD E AUTOR DE "THE FUTURE OF POWER"

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