Mirwais Rahmani / AP
Mirwais Rahmani / AP

Teremos de começar do zero, diz brasileiro no Níger

Pastor missionário afirma que protestos contra o jornal satírico francês Charlie Hebdo, no sábado, destruíram igrejas de brasileiros e prédios de ONGs que fazem trabalho social no país

Renata Tranches , O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2015 | 12h21

Um pastor missionário brasileiro que vive há seis anos no Níger contou ao Estado que os protestos violentos de militantes muçulmanos contra a capa do jornal satírico francês Charlie Hebdo destruíram várias igrejas e boa parte do trabalho social de sua ONG. "Teremos de começar do zero", disse. Por temer retaliação contra ele e sua família, ele pediu que seu nome e o da organização internacional para a qual trabalha fossem omitidos. Pelo menos duas igrejas brasileiras foram destruídas. 

No Níger, segundo ele, há atualmente tem 32 brasileiros, todos cristãos, que fazem trabalhos sociais e religioso no país. "É um país muçulmano, mas que sempre teve uma relação muito legal com os cristãos. Nunca tivemos problemas e tenho vários amigos muçulmanos", afirmou, acrescentando que o país está em choque e ninguém esperava que algo tão violento acontecesse.

Pelo menos dez pessoas morreram durante os protestos que começaram na sexta-feira. Durante dois dias, os manifestantes incendiaram igrejas, destruíram bares e bloquearam várias estradas do país. Os atos de violência fazem parte de uma onda de protestos contra os franceses que varreu parte da África, Oriente Médio e Ásia, depois que a última edição do Charlie Hebdo trouxe em sua capa uma caricatura do profeta Maomé. Os manifestantes alegam que a publicação satiriza o islã. Os protestos ocorreram em várias partes do mundo. 


O brasileiro relatou que no sábado foi aconselhado por outro pastor, que acabara de ter sua igreja incendiada, a deixar a sua casa, que também é sede da organização para a qual trabalha. Ele disse que retirou as placas com o nome da ONG e, logo em seguida, um grupo de manifestantes passou em frente gritando "Allah Akbar" (Deus é maior). 

"Eu, minha mulher e meu filho nos escondemos dentro de casa, meus amigos muçulmanos ficaram olhando eles (manifestantes) passarem", lembrou. O brasileiro disse que, à noite, buscou refúgio na casa de outro brasileiro, onde ficou até a manhã desta segunda-feira. "Nós perdemos duas igrejas e uma escola (da ONG), que atendia 350 crianças muçulmanas. Eles queimaram tudo." 

A orientação do Consulado brasileiro em Benin, segundo o pastor, é ter cuidado e aguardar os próximos dias. Não havia indicação para a retirada dos brasileiros do país, como explicou. Não há representação diplomática brasileira residente no Níger e a embaixada em Cotonou (capital do Benin) é responsável por representar o Brasil junto ao Níger. 

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