Termina o referendo constitucional no Egito

O líder da oposição Mohamed ElBaradei, crítico do projeto, foi atacado e impedido de votar por multidão enfurecida

BBC Brasil, BBC

19 de março de 2011 | 16h18

Eleitores fazem fila para votar no Cairo. Foto: Asmaa Waguih/Reuters

Terminou neste sábado o referendo sobre reforma constitucional no Egito, um mês depois dos protestos populares que provocaram a queda do ex-presidente Hosni Mubarak. Os resultados devem ser divulgados no domingo.

 

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Se for aprovado pela população, o referendo abrirá caminho para novas eleições parlamentares e presidenciais no país dentro de seis meses. Em Cairo, a capital do país, uma multidão enfurecida impediu que o líder da oposição Mohamed ElBaradei, Nobel da Paz, de votar.

Segundo o correspondente da BBC no Cairo, Jonathan Head, El Baradei foi atacado por uma multidão enfurecida quando se aproximava de um posto de votação em um bairro islâmico.

Gritando palavras de ordem como "Não o queremos", as pessoas atiravam pedras e garrafas no líder político, que teve que deixar o local antes de poder votar. Mas Head diz que apesar das longas filas, a população parecia bem humorada. Grande parte do eleitorado considera este o primeiro processo eleitoral livre de sua vida.

"Estou muito animada", disse à BBC Nermeen Badayr, 53. "Ontem à noite preparei minha roupa de votar como uma criança indo para a escola pela primeira vez." Ela contou que é a primeira vez que se deu ao trabalho de sair de casa para exercer seu direito. "Antes eu nem ligava para quem estava ganhando ou perdendo, porque era tudo acertado de antemão."

No entanto, a proposta de reformas constitucionais dividiu opiniões até mesmo entre os líderes do levante popular contra o governo de Mubarak. Os críticos, como ElBaradei, dizem que as reformas não são suficientes. Outros consideram que aceitar a reforma constitucional é o passo mais importante em direção a um sistema completamente democrático, e que estimulará a saída dos militares do poder.

Propostas

Os dois principais blocos políticos egípcios, o Partido Democrático Nacional e a Irmandade Islâmica, manifestaram apoio às propostas em votação. Entre elas, está a redução do mandato presidencial de seis para quatro anos, com apenas uma reeleição.

O presidente seria obrigado a escolher seu vice dentro de 30 dias após eleito. A proposta mudaria ainda os critérios para candidatos a presidente, que teriam de ter mais de 40 anos e não ser casados com pessoas de nacionalidade estrangeira.

Para analistas, eleições o quanto antes beneficiariam os dois principais movimentos políticos egípcios, já que os pequenos partidos surgidos após o levante popular não teriam tempo de se organizar para a campanha. Hosni Mubarak, que liderou o Egito por três décadas, deixou o poder em fevereiro após 18 dias de protestos populares.

Críticas

Apesar das mudanças, grupos de campanha por reformas democráticas acreditam que as propostas do referendo não vão longe o suficiente. Eles pedem que a Constituição do país seja totalmente reescrita antes de qualquer eleição.

Para o prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, que emergiu como líder da oposição durante os protestos de fevereiro, as mudanças constitucionais propostas só se preocupam com "detalhes".

"(O projeto) não trata do poder imperial do presidente, não fala das distorções no Poder Legislativo, da necessidade de uma assembleia constituinte independente que represente a todos", disse ElBaradei à agência AFP. "Por isso vamos dizer não. A maioria das pessoas que gerou a revolução vai dizer não."

Os autores do texto das mudanças preferiram deixar de fora uma modificação radical nos poderes presidenciais por acreditar que essa tarefa deve caber ao próximo Parlamento. Na última sexta-feira, grupos contrários ao referendo voltaram a ocupar a praça Tahrir, no Cairo, para protestar contra o que consideram um texto pouco ambicioso.

 

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