Território começa a avaliar benefícios e custos da anexação

CENÁRIO:

Pamela Constable e Carol Morello*, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

17 de março de 2014 | 02h00

Na capital da Crimeia, Simferopol, na semana passada, as pessoas se aglomeravam diante de cartazes, aparentemente oficiais, apontando e tomando notas. Os cartazes continham comparações dos salários dos funcionários públicos, das aposentadorias, dos custos da saúde e dos combustíveis na Ucrânia e na Rússia.

Em cada caso, a vida na Rússia parecia melhor. "Minha aposentadoria é miserável, mas logo irei receber quase o dobro", disse Yuri Khotchiv, de 79 anos, engenheiro aposentado que recebe cerca de US$ 210 por mês do governo da Ucrânia. Ele pretende votar pela anexação à Rússia no referendo de hoje - em parte por um sentimento patriótico e em parte em razão das promessas anunciadas nos pôsteres.

Na última semana, Moscou e os líderes da Crimeia favoráveis à Rússia acenaram com uma série de vantagens para a população, pintando a Rússia como um país estável, paternalista, com mais empregos, salários mais altos, impostos mais baixos, melhor assistência médica, exames de ingresso na universidade mais fáceis e pensões muito mais generosas para o número crucial de aposentados civis e militares.

Na cidade portuária de Sebastopol, um jornal publicou uma entrevista com o presidente da Câmara Municipal, Dmitri Belik, que assinalava vários benefícios que os ucranianos receberão ao se tornarem russos. Soldados e marinheiros receberão automaticamente aposentadorias melhores, a idade para esse benefício será reduzida em cinco anos e os funcionários públicos manterão seus empregos, mas receberão um salário mais elevado. Haverá isenções de impostos durante três meses e a educação dos filhos será gratuita. "Vocês querem viver num país próspero ou ser pobres num país governado por traidores e criminosos?"

Contudo, as complexidades burocráticas e as implicações menos agradáveis que comporta a mudança de nacionalidade da noite para o dia continuam mais difíceis de serem definidas. Muitas repartições governamentais praticamente deixaram de funcionar. Preocupações, por exemplo, com novas normas bancárias ou com o serviço militar obrigatório - que vigora na Rússia e não na Ucrânia -, na maioria das vezes, são respondidas com uma atitude de incerteza ou mesmo descrença.

Uma área onde reina grande confusão é a diferença entre os procedimentos legais e medidas de ordem política no dois países. Serguei Zayetz, advogado de Sebastopol, disse que não conhece muito bem a legislação russa e está nervoso com o que poderá acontecer. "É como um cigano lendo folhas de chá", observou. "A única pergunta para a qual consegui resposta é que ainda poderemos exercer a profissão."

Zayetz disse que as vendas de imóveis pararam na Crimeia, porque o governo de Kiev deixou de registrá-las. O mais preocupante é que os suspeitos de crime na Rússia têm poucos direitos. Frequentemente, são detidos por longos períodos aguardando acusação formal e as confissões, muitas vezes, são aceitas mesmo quando obtidas à força.

Em Simferopol, os comerciantes afirmam que não têm ideia das normas ou dos custos para obter uma licença russa, de como lidar com clientes ucranianos que de repente se tornariam clientes estrangeiros ou do que aconteceria com suas contas bancárias. "Os trabalhadores querem salários mais altos para ficarem satisfeitos com a mudança, mas os proprietários das empresas têm outras preocupações", comentou Ana Khrykava, que tem duas empresas na Crimeia. "Na Rússia, muitas leis referentes aos negócios não são escritas e mudam o tempo todo. As pessoas acham que há mais estabilidade por lá, mas de certo modo a situação seria mais instável."

O câmbio e a segurança das contas bancárias também são motivo de ansiedade. Em Simferopol, as filas diante dos caixas eletrônicos, nas casas de câmbio e no saguão dos bancos tornaram-se cada dia mais longas. Alguns clientes procuravam saber se suas contas estavam seguras, outros tentavam sacar o máximo de dinheiro possível enquanto outros compravam dólares.

"Não confiamos mais na grivnia e ainda não conhecemos o rublo", disse um homem que comprara US$ 300 em notas, referindo-se às moedas ucraniana e russa. Ele contou que queria comprar um carro usado e o vendedor só aceitava dólar.

Em Sebastopol, a prefeitura de Moscou administra um centro comercial e cultural, cujo diretor, Kirill Somov, disse que as autoridades da Rússia e da Crimeia começaram a elaborar planos de transição provisórios. Por exemplo, ele afirmou que os estudantes da Crimeia terão permissão para se matricularem em universidades russas por um ano sem prestar exames de ingresso e os livros de história da Ucrânia serão substituídos por livros de texto russos.

Ele acrescentou que os donos de empresas da Crimeia acabarão se tranquilizando e citou o caso de um distribuidor de cerveja, preocupado com a possibilidade de não poder mais comprar produtos de Kiev, que foi contatado por cervejarias russas. No entanto, Moscou admite que outros grupos de cidadãos da Crimeia, como jovens em idade de prestar serviço militar, talvez não se sintam tão entusiasmados. Os russos étnicos poderiam obter facilmente passaporte russo e os cidadãos da Crimeia poderiam ficar com seus passaportes ucranianos - embora, nesse caso, não devam poder votar.

Questionados sobre as dificuldades que poderão encontrar durante a transição, vários russos étnicos de Simferopol afirmaram que nada será importante, somente o fato de poderem voltar à pátria. "Estamos tão eufóricos que todo o resto parece uma coisa menor", disse Viktor Grigorovich, de 75 anos, funcionário público aposentado.

No entanto, segundo Khrykava, de 33 anos, os habitantes da Crimeia que imaginam uma vida perfeita sob a Rússia estão "sonhando com a antiga União Soviética, onde o Estado dá tudo aos cidadãos". "Não queremos que o Estado nos dê tudo. Queremos assumir nossas responsabilidades, assumir riscos e queremos ser livres."

*Pamela Constable e Carol Morello são jornalistas.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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