Terror e incerteza fazem rebeldes esconderem rostos

Jovens sírios se recusam a aparecer por medo de perseguição do regime, algo incomum em outras revoluções árabes

ALEPO, SÍRIA, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h03

Uma prova sutil, mas inquestionável do terror que o presidente da Síria, Bashar Assad, ainda desperta na população se revela nas atitudes de rebeldes do norte do país. Diante de jornalistas estrangeiros, e especialmente de câmeras fotográficas, muitos jovens e adultos que aderiram à revolta escondem os rostos ou pedem para não ser identificados em reportagens.

A razão dessa busca pelo anonimato foi sintetizada em Alepo por um jovem estudante insurgente. "Não sabemos o que vai ocorrer amanhã", disse. Essa preocupação se revela a todo momento.

Mesmo no quartel-general dos insurgentes, no bairro de Sakhour, vários rebeldes permanecem a maior parte do tempo com máscaras ou com a keffieh, tradicional lenço árabe, enrolados ao rosto. Na manifestação pública de sexta-feira, em Alepo, dezenas de jovens se protegiam para evitar qualquer possibilidade de identificação.

"Todos temos medo de que os shabiha (violenta milícia pró-Assad) nos fotografem e passem nossas imagens para os serviços secretos", afirmou ao Estado um jovem, que pediu para ser chamado pelo nome fictício de Ahmed.

Prisão e tortura. Sua preocupação se justifica. Em 2011, ele foi ferido com um tiro nas costas na primeira manifestação pública contra o regime na cidade. Capturado, foi preso por milicianos e torturado. Ahmed lembra com especial angústia os dois dias que ficou privado de água na detenção.

Usando a mesma máscara negra, seu amigo e companheiro de manifestação indignava-se contra o que considera ser um regime traiçoeiro, pronto para identificar seus opositores e a persegui-los até a morte se necessário.

Essa obsessão de alguns rebeldes em preservar sua identidade se estende à esfera privada. Em um jantar de Ramadã, mês sagrados dos muçulmanos, vários jovens rebeldes pediram para não ser identificados e, ao se deparar com a câmera da reportagem, um estudante se atirou a um sofá, de bruços, escondendo o rosto.

"Por favor, não tirem fotografias de nenhum de nós. Conhecemos muitas pessoas que morreram na prisão apenas por terem em seus celulares imagens em que apareciam nos protestos", justificou um dos jovens. "É uma questão de vida ou de morte." / A.N.

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