Terror e prestígio internacional

O que o líder do Al-Shabab quer é uma guerra com o inimigo estrangeiro para se destacar antes de suas forças implodirem

Aidan Hartley, The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2010 | 00h00

Eu conheço o "líder espiritual" do grupo militante somali Al-Shabab que insuflou seus seguidores a atacar alvos da África Ocidental dias antes de atentados suicidas provocarem a morte de 80 pessoas que assistiam à final da Copa do Mundo em Kampala, Uganda, no dia 11.

Seu nome é Mukhtar Roobow Ali e eu o conheço porque uma vez ele tentou me matar. Em 2008, em Mogadíscio, capital da Somália, suas forças tentaram explodir o carro da minha equipe de TV. Mas o conheço também de outra ocasião, quando ele provavelmente salvou minha vida.

Em 2006, Roobow - uma pessoa inteligente, de cerca de 30 anos, simpático aos jornalistas - convidou meu produtor de TV e a mim a ir até a frente de batalha do Al-Shabab. Na época, as tropas etíopes apoiadas pelos americanos tinham invadido a Somália para atacar as facções islâmicas, e o Al-Shabab fazia parte da coalizão que combatia aquelas tropas.

Fomos com ele de carro para uma base no centro da Somália. Ele conversou com alguns militantes e abriu caminho para irmos para a linha de frente. Mais à frente na estrada, ele desceu do carro para saudar Aden Hashi Ayro, o fundador do Al-Shabab. Como Roobow, Ayro treinou nos campos do Afeganistão. Em meados de 2000, formou as primeiras forças do Al-Shabab e mais tarde anunciou ter transformado sua milícia numa célula da Al-Qaeda na África Ocidental.

Mas sentados no carro, o aspecto mais importante do histórico de Ayro era que teria organizado a morte de um jornalista britânico. Após trocar algumas palavras com Roobow, ele se virou para nos cumprimentar, mas recuou quando viu quem éramos. Ayro levantou sua AK-47 e caminhou na direção de Roobow. E começaram uma discussão acalorada. Entendi depois que o nosso anfitrião estava negociando nossas vidas. Ayro mostrava-se nervoso com ocidentais de olhos fixos nele. Num ataque anterior, agentes americanos tentaram capturá-lo, mas fracassaram. E neste dia, como em todos os dias, um avião espião americano podia ser visto no céu.

Nossa profunda inquietação diminuiu quando ele se afastou e Roobow voltou para o carro. "Tudo bem agora!". Paradoxalmente, sentimo-nos gratos a esse homem que, sabíamos, poderia nos matar se achasse que nossa cobertura do Al-Shabab era inútil.

Quando nos encontramos com Roobow em 2006, o movimento jihadista internacional considerava o Al-Shabab uma unidade provincial africana, que não tinha mostrado nenhum ato de bravura. Mas, na conversa que tivemos, ficou claro que Roobow ambicionava fazer o movimento crescer - literalmente.

Em maio de 2008, Ayro foi morto num ataque aéreo americano e Roobow tornou-se o líder do Al-Shabab. Agora, as forças de Roobow parecem ter chegado ao máximo da radicalização e os militantes do Al-Shabab começaram a ter divisões internas.

O que Roobow deseja é uma guerra contra um inimigo estrangeiro que possa lhe dar prestígio internacional antes de suas forças implodirem. O atentado em Uganda é mais um motivo para o Ocidente procurar um caminho diplomático para a crise da Somália. Uma nova intervenção militar dará a Roobow exatamente a munição que ele procura. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA DO CHANNEL 4 E ESCRITOR

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