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Terror em terras distantes

Atentados revelam que o Estado Islâmico não é apenas um grupo concentrado em capturar território na Síria e Iraque

Eric Schmidt e David D. Kirkpatrick*, The New York Times

16 de novembro de 2015 | 03h00

Desafiando os esforços ocidentais para combatê-lo no campo de batalha, o Estado Islâmico evoluiu em alcance e capacidade organizacional, com núcleos cada vez mais perigosos fora do Iraque e da Síria e estratégias que requerem o uso de atos de violência impressionantes contra civis.

Mas mesmo com os atentados em Paris na noite de sexta-feira, os Estados Unidos realizaram ataques aéreos, planejados dias antes - contra o líder do Estado Islâmico na Líbia, onde foi estabelecida uma importante base do grupo no Norte da África. Forças de Operações Especiais americanas e britânicas há meses vêm realizando missões de vigilância na Líbia para monitorar o aumento de combatentes alinhados com o Estado Islâmico. O massacre em Paris, os atentados à bomba em Beirute, no Líbano, e a derrubada do avião comercial russo no Egito - reivindicados pelo EI - revelam uma organização terrorista que mudou muito em relação ao que o Ocidente acreditava no início, ou seja, de que se tratava de um grupo concentrado em capturar território na Síria e Iraque e criar um califado.

Os ataques realizados pelos Estados Unidos e seus aliados - incluindo uma campanha de bombardeios contra posições de combate controladas pelo EI e instalações petrolíferas, juntamente com uma ofensiva em terra pelas forças curdas para eliminar uma importante linha de suprimentos - constituem um prenúncio de como o Ocidente poderá responder à ameaça crescente nas próximas semanas.

O Estado Islâmico pela primeira vez levou a cabo uma campanha, ao que parece planejada, de ataques terroristas destinada a infligir o maior número de vítimas civis num território distante, obrigando os envolvidos no campo do contraterrorismo, tanto nos EUA como na Europa, a reverem suas avaliações sobre o grupo.

“Eles cruzaram uma espécie de Rubicão”, disse William McCants, membro da Brookings Institution e autor do livro The ISIS Apocalipse. “Eles mudaram claramente suas ideias sobre como atingir diretamente seus inimigos”.

Quando o braço egípcio do EI assumiu a responsabilidade pela derrubada do avião russo no Sinai, há duas semanas, alguns analistas se perguntaram se o grupo Província do Sinai, braço do EI, agira por conta própria e saltara na frente, mesmo com o risco de uma reação violenta do Exército russo contra sua matriz na Síria e no Iraque.

Mas os ataques em Paris e em Beirute parecem ter respondido a pergunta e convencido até mesmo os céticos de que a liderança central do grupo continua no comando.

“Há uma mudança radical de percepção pelos terroristas de que agora eles podem agir em Paris do mesmo modo que agem na Síria ou em Bagdá”, afirmou Mathieu Guidère, especialista na matéria de terrorismo na Universidade de Toulouse. “Com esta ação a barreira psicológica foi derrubada”.

Com efeito, num momento em que muitas autoridades ocidentais estão mais preocupadas com ataques dos chamados lobos solitários, inspirados no EI - que são assustadores porque são aleatórios, mas no geral provocam menos vítimas -, os atentados em Paris reviveram o espectro dos ataques coordenados, com grande número de vítimas, planejados e com o envolvimento de um número relativamente grande de criminosos.

Para autoridades americanas e europeias, os atentados em Paris têm a marca dos ataques complexos realizados pela Al-Qaeda, ou o de Mumbai em 2008, quando dez militantes islâmicos realizaram 12 ataques e bombardeios na cidade indiana que duraram quatro dias e causaram a morte de 164 pessoas. “O objetivo deles é levar a cabo uma guerra de guerrilha urbana não convencional”, disse Franck Chaix, oficial da polícia militar francesa.

A Al-Qaeda, principal antecessora do Estado Islâmico, construiu sua identidade em torno de ataques terroristas de grande repercussão porque seus líderes se viam como insurgentes cujo objetivo era derrubar os governos árabes que chamavam de apóstatas. A Al-Qaeda quis atrair o Ocidente para ações militares que desestabilizariam esses Estados árabes. O EI, pelo contrário, vem se definindo cada vez mais como Estado e, sob muitos aspectos, se comporta como tal.

A ideologia e a motivação que levaram a essa mudança podem continuar obscuras por anos. Analistas sugerem que o lado messiânico e apocalíptico da sua ideologia jihadista pode ter aprimorado o impulso pragmático que antes pareceu guiar a expansão do grupo. Ora, dizem os especialistas, o EI estaria pretendendo usar grandes atentados terroristas de maneira que um poder mais convencional use a força aérea como instrumento de defesa para retaliar os ataques inimigos e tentar detê-los.

Mas, neste caso, as táticas do grupo não têm sentido, pois vão provocar esforços redobrados do Ocidente para esmagar a organização militante. Os ataques foram realizados tendo por pano de fundo sinais de que os líderes do Estado Islâmico em Raqqa, na Síria, estariam aumentando sua cooperação com as duas afiliadas mais importantes, na Líbia e no Egito.

O principal braço do EI na Líbia - conhecido como Tripoli Province e baseado na cidade de Sirte - mantém há muito tempo Estreita colaboração com o núcleo sírio do grupo. Os dois grupos começaram a divulgar essa cooperação em fevereiro por meio de um vídeo mostrando combatentes do EI decapitando cristãos egípcios.

Segundo agências de inteligência ocidentais, os militantes do EI com experiência na Síria e no Iraque frequentemente aparecem em Darnah, base militante a leste de Sirte. Os Estados Unidos ampliaram os combates contra o EI na Líbia na noite de sexta-feira, tendo como alvo o principal líder do grupo naquela região. Ataques aéreos foram realizados em Darnah logo depois dos atentados de Paris, mas já vinham ocorrendo há vários dias.

Sem um governo funcionando plenamente, a Líbia oferece uma variedade de refúgios e esconderijos para militantes do EI, de modo que ataques aéreos ou outras ações levadas a cabo em Sirte somente os empurrarão para outros lugares. E ao contrário de Síria e Iraque, a Líbia é um Estado falido cercado por outros Estados muito frágeis.

O intervalo entre a explosão do avião russo e os ataques do EI em Beirute e Paris é a indicação mais clara de que a afiliada do grupo no Sinai pode estar recebendo ordens do EI na Síria e no Iraque. Se os ataques nos três países foram coordenados, membros do comando central estão envolvidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Eric Schmidt e David D. Kirkpatrick são jornalistas do The New York Times

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