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Terror no Sri Lanka e suas lições

A intolerância deve ser condenada, não importa contra quem ela se dirige

Lourival Sant'Anna , O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 05h00

Os atentados do Domingo de Páscoa contra três igrejas e quatro hotéis no Sri Lanka servem para lembrar duas realidades facilmente ignoradas por quem não tem familiaridade com o tema do terrorismo: é preciso levar as palavras a sério e não se deve descartar a possibilidade de radicalização de pessoas de perfil socioeconômico privilegiado.

Entre os participantes dos atentados estavam dois filhos e uma nora de Mohamed Ibrahim, importante empresário de Colombo, capital do país. É claro que a marginalização e a falta de estrutura familiar tornam as pessoas mais vulneráveis às pregações radicais, mas não são condições necessárias. Conheci muitas pessoas de classes média e alta que aderiram à noção de martírio do Islã político.

Entre os oito militantes que aparecem em um vídeo jurando obediência ao líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdad, apenas um está com o rosto descoberto: o pregador radical muçulmano Zahran Hashim, que a polícia considera ter sido o mentor intelectual do massacre. Hashim era conhecido por seus discursos repletos de intolerância, distribuídos pelas plataformas digitais. Num deles, afirmou que existem três tipos de pessoas: os muçulmanos, aqueles que alcançam um acordo com os muçulmanos e os que “precisam ser mortos”. 

Hashim ordenava a seus seguidores matar os “idólatras” onde quer que os vissem. Ele se revoltava com tudo o que considerava um “desvio” do código de conduta islâmico, como por exemplo moças que dançam. 

O radicalismo do pregador era visto pelas autoridades cingalesas como algo perturbador, porém inofensivo. Como algo que não passaria das palavras exageradas. Mesmo quando a comunidade de inteligência indiana advertiu para o risco iminente de atentado, a polícia do Sri Lanka não entrou em ação para conter preventivamente figuras como Hashim.

A franquia do EI no Sri Lanka tem apenas 200 recrutas, segundo especialistas. O foco do movimento é a minoria tâmil, predominantemente hinduísta, mas que também tem cristãos e muçulmanos. Os tâmeis tiveram um conflito sangrento com a maioria cingalesa, de religião budista. Os Tigres Tâmeis, movimento que conduziu durante 25 anos a luta armada pela independência do nordeste da ilha, foram derrotados militarmente há uma década. Mas os ressentimentos perduram, e é aí que o EI busca adeptos. 

Os ataques contra duas mesquitas em março por um supremacista australiano na Nova Zelândia, na mesma região da Ásia-Pacífico, sobre a qual o EI almeja exercer influência, serviu de gatilho para a represália em Colombo.

Nessa cadeia de retroalimentação da intolerância e do ódio, o tuíte do chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, foi profundamente infeliz: “Neste Domingo de Páscoa, no Sri Lanka, mais de 200 cristãos pagaram com a vida pela sua fé no Cristo, e amanhecerão com Ele no paraíso. O martírio faz parte da fé. Mas o mundo precisa levantar-se contra a perseguição e opressão aos cristãos”.

Quando alguém é morto, ainda que seja pela sua identidade religiosa, não devemos lamentar a violência pelo fato de a vítima pertencer à nossa religião. A intolerância precisa ser condenada em si mesma, independentemente do grupo contra o qual ela se dirige. Caso contrário, a condenação serve de combustível para a intolerância. 

Escrevo de Lalibela, na Etiópia, um monumento ao cristianismo, com suas igrejas esculpidas na rocha no século 12, e onde se comemora hoje a Páscoa ortodoxa. Aqui, cristianismo, islamismo e religiões tradicionais africanas convivem em harmonia, apesar de eventuais tensões étnicas e das dificuldades econômicas. Dos dois lados, filiais da Al-Qaeda atuam para desestabilizar o Quênia e a Somália. Aqui já se sabe que “no princípio foi o verbo”, como diz a Bíblia: as palavras importam, e precisam ser usadas com sabedoria.

 

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