Terror pode estar usando passaporte brasileiro

A fragilidade do passaporte brasileiro - desprovido de mecanismos de segurança que possam inibir sua falsificação - está alimentando organizações terroristas em todo o mundo. Há pistas e nomes nessa direção: pelo menos três suspeitos de envolvimento nos ataques de 11 de setembro aos Estados Unidos foram pilhados com passaporte brasileiro adulterado. Um deles é Imad Mohammed Jaber, de 26 anos, detido na fronteira do México. Na bagagem de Jaber, as autoridades encontraram números de telefones do Afeganistão, Nova York, Canadá e Alemanha. As revelações são do Sindicato dos Delegados da Polícia Federal em São Paulo. "Temos um passaporte tão seguro quanto os modelos emitidos por Moçambique e Cabo Verde", atesta um relato de seis páginas da publicação oficial da entidade, a SindPF. "O Brasil vai ter que se acostumar com a idéia de estar indiretamente favorecendo o terrorismo internacional", alerta o texto, intitulado "Terrorismo, e nós com isso?" A revista, que será distribuída esta semana, informa que o passaporte forjado aqui vale até US$ 50 mil no exterior. A capa apresenta uma montagem - um passaporte brasileiro e o rosto do terrorista saudita Osama bin Laden, com a tarja "procurado" em vermelho. Além de Imad Jaber, o FBI - a polícia federal americana - mantém sob rigorosa custódia o brasileiro Khaled Youssef Mostafa Darwich, paulista de origem egípcia. Darwich, de 20 anos, mora há 4 em Memphis, EUA. Ele é um dos mais de 300 detidos pelo FBI numa relação de quase 400 suspeitos. Outro brasileiro, Saleh Eldin Ali el Hage, de 37 anos, residente em Nova York, também está sendo procurado. O sobrenome e o passaporte brasileiro são pontos em comum desses cidadãos. "O nosso passaporte é um dos mais disputados e menos seguros", asseveram os federais. A preferência não é só pela facilidade de fazer cópias intrigantemente fiéis. O principal argumento dos delegados é de que, "com biotipos múltiplos, que vão do negro aos descendentes de alemães, o brasileiro é um cidadão do mundo com sobrenomes que vão do Silva ao Farh e Reichmann". Essa diversidade "abre caminho para as fraudes dentro e fora do Brasil". Licitação - De olho na imagem do País no exterior, a PF abriu licitação para a confecção do documento. Foram feitas exigências como a de a empresa interessada provar que obedecerá normas internacionais de segurança. O novo passaporte inspira-se no modelo adotado em 114 países. O documento deverá ser dotado de código de barras para leitura mecânica e ficará inserido em um sistema de integração internacional, de modo que uma eventual falsificação poderá ser identificada imediatamente por outros países. O papel utilizado reagirá a substâncias químicas. "Se um fraudador tentar adulterá-lo com uso de algum produto, o próprio papel terá sofrerá alterações", diz o delegado José Adauto Duarte, da PF em Brasília. O projeto estava orçado em R$ 136 milhões - o que seria compensado com uma arrecadação de taxas anuais de R$ 250 milhões -, mas acabou esbarrando há quase três anos numa queda-de-braço entre o governo de São Paulo e o Ministério da Justiça, então dirigido pelo senador Renan Calheiros (PMDB-AL). O ponto central da polêmica, segundo a revista: o consórcio vencedor da concorrência ofereceu o melhor preço, mas, com a queda do real, teria proposto indexação à inflação e à variação do dólar. Com isso, o Palácio do Planalto pôs o projeto em banho-maria.

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