Justin Tallis/AFP
Justin Tallis/AFP

‘Terrorismo age em surtos, mas não por imitação’

Para especialista, geopolítica e história migratória europeia favorecem ocorrência de atentados

Entrevista com

William Braniff

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington , O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2017 | 05h00

O terrorismo é um fenômeno que parece ocorrer em “surtos”, mas não necessariamente pelo “efeito imitação” de ataques anteriores, diz William Braniff, diretor-executivo do Consórcio Nacional de Estudo do Terrorismo e de Respostas ao Terrorismo da Universidade de Maryland. Veja a entrevista que ele concedeu ao Estado

Por que a Europa tem sido tão visada por terroristas?

Isso tem muito a ver com a geografia e o fato de que indivíduos de áreas de conflito no Iraque e na Síria podem chegar facilmente a nações europeias. Além disso, recrutadores podem usar a internet para ter acesso a integrantes de famílias que vieram de países muçulmanos e vivem na Europa há uma, duas ou três gerações. Eles são um alvo para recrutadores que tentam mobilizar indivíduos para o terrorismo.

Quando um ataque ocorre, há um “efeito imitação” que inspira outros atos semelhantes?

Há algumas evidências de que um indivíduo é motivado a agir quando vê a notoriedade e a atenção recebida pelos autores de atos violentos. Mas eu acho que há outras razões mais frequentes pelas quais o terrorismo parece ocorrer em surtos. O terrorismo é um fenômeno social. Normalmente, é uma rede de pessoas que gera um ataque violento e ela tem a habilidade de gerar um segundo ou um terceiro atentado. 

Nós não estamos diante de lobos solitários, certo?

O mais comum é que o indivíduo esteja inserido em uma comunidade extremista, que pode ser virtual ou com a presença física dos demais. É muito raro vermos um ator puramente solitário. As organizações terroristas observam isso e tentam criar relações pessoais com indivíduos que querem recrutar. Eles usam mídias sociais e ferramentas da internet, se isso é tudo o que eles têm, mas se puderem ter uma relação pessoal face a face, eles obviamente tentarão fazer isso. 

Por que não vimos ataques recentes nos Estados Unidos?

Como disse, a geografia desempenha um papel muito importante. Nós também temos menos desafios para compartilhar informações. Na Europa Ocidental há muitos pequenos países, o que requer uma grande quantidade de troca de informações através de fronteiras nacionais. Nações-Estados são em parte definidas pelo fato de que têm soberania sobre sua segurança. Elas não são desenhadas para compartilhar dados de segurança nacional facilmente. Em um país grande como os Estados Unidos, que só tem dois vizinhos geográficos, o desafio é muito menor do que na área de Schengen (que reúne os 26 países da Europa entre os quais o trânsito de pessoas é livre). Lá, é muito fácil viajar, mas não é tão fácil compartilhar informações.

De que maneira os ataques recentes diferem dos que vimos antes? Estamos vendo uma nova tendência no terrorismo?

As organizações terroristas estão encorajando ataques de baixa tecnologia, na expectativa de que as pessoas respondam e se engajem nesse tipo de ação. Mas ainda não sabemos se é um surto ou uma tendência de longo prazo.

Quão difícil é combater um ataque de baixa tecnologia?

É excepcionalmente desafiador, porque você tem de restringir ações que são parte da vida do dia-a-dia, como dirigir carros ou ter facas de cozinha. São coisas que governos em sociedades abertas e livres não têm nenhum interesse em restringir. Quando uma organização terrorista transforma uma tecnologia inocente em um instrumento de violência, isso cria problemas para a sociedade. Isso foi óbvio com sequestros de aviões e os ataques de 11 de Setembro (de 2001). A indústria de aviação se transformou em uma arma. Mas você não pode eliminar a aviação. É necessário pensar em como mitigar os riscos sem comprometer a arena onde esse risco de manifesta. É difícil minimizar o risco de uma pessoa usar seu próprio carro como arma. Faz mais sentido prevenir a radicalização de pessoas, para que elas não usem seus carros como armas, em vez de tentar impedi-las quando já tomaram essa decisão.

E como fazer isso?

Cidadãos comuns precisam acreditar que é sua responsabilidade pessoal proteger uns aos outros. Eles devem negar qualquer legitimidade para esse tipo de violência e fazer uma intervenção quando veem alguém flertando com um website ou um recrutador radical. Se as pessoas assumirem isso como responsabilidade pessoal, como membros da sociedade civil, é possível reduzir o número de pessoas que se engajam em violência. Isso aconteceu no passado. Muitos grupos terroristas eram populares e perderam popularidade em parte porque a comunidade rejeitou a violência que era cometida em seu nome.

Isso demandaria o engajamento de comunidades muçulmanas.

Nós vemos comunidades muçulmanas engajadas em ações de combate ao extremismo, mas serão necessárias mais ações desse tipo para retirar a legitimidade desse tipo de violência e colocar no ostracismo os responsáveis por ela. As comunidades muçulmanas condenam a violência, mas é preciso mais do que condenação. Precisamos de programas comunitários de intervenção e de reabilitação. Eu não estou culpando a comunidade muçulmana em geral pelos atos de indivíduos. Esses indivíduos não representam o Islã. Mas é mais provável que membros da comunidade muçulmana vejam uma tentativa de recrutamento de jovens. Há uma responsabilidade cívica de proteger os próprios membros da manipulação desses movimentos extremistas.

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