Terrorista critica mistura de raças do Brasil

500 páginas, atirador norueguês diz que miscigenação é responsável pela ''falta de coesão'' do País, uma nação ''de segunda classe''

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

O Brasil recebe 12 menções no manifesto de exatas 1.516 páginas deixado na internet pelo extremista norueguês Anders Behring Breivik, que matou 76 pessoas na sexta-feira.

Primeiro, o País aparece como exemplo negativo de "mistura de raças", responsável pela suposta falta de coesão interna, que transformaria o Brasil em um país de segunda classe. Para o terrorista, a variedade de "subtribos" sabota qualquer esperança de se atingir no Brasil "o mesmo grau de produtividade e harmonia" de Escandinávia, Alemanha, Coreia do Sul e Japão.

Em seguida, Breivik diz que o "modelo brasileiro" foi estabelecido após a "Revolução Marxista Brasileira", responsável pela "mistura de europeus, asiáticos e africanos". A nuvem de 778 mil palavras do texto (veja ao lado) mostra como o ele é repetitivo. Os termos mais citados (em inglês) são "europeu", "Europa", "muçulmano(s)", "Islã/islâmicos", "cristão(s)" e "ocidental".

O manifesto impressiona pelo tamanho, mas não pelo conteúdo. Grande parte foi produzida seguindo os preceitos da escola tecno-filosófica do CTRL+C e CTRL+V. Plágio puro e simples. Do manifesto do Unabomber a blogs de extrema direita, de páginas de malucos em geral à Wikipédia, trechos inteiros foram copiados e colados.

Quanto ao conteúdo, trata-se de um caso radical do que o crítico Roberto Schwarz certa vez chamou de "ideias fora do lugar". Citações desconexas de autores marxistas misturadas com trechos da revista Economist, estatísticas inventadas e passagens do Alcorão. Tudo para "provar" que a Europa está sob ataque do Islã (uma nova onda de ataque, na sua versão) e precisa se defender militarmente - usando todas as armas que tiver à mão, incluindo o terrorismo.

Antes de atacar os muçulmanos, o terrorista defende ser preciso combater adversários internos que facilitam a penetração do "inimigo" no território europeu. A saber: políticos liberais, marxistas, feministas, defensores do politicamente correto, a academia e todo mundo que discordar de suas convicções racistas. Daí os alvos de Breivik terem sido o governo liberal norueguês e os filhos de seus líderes.

Breivik, que assina Andrew Berwick, tenta valorizar seu esforço intelectual escrevendo logo no começo que a elaboração do documento lhe tomou nove anos e 317 mil. Difícil imaginar como um trabalho de copiar e colar pode ter demorado e custado tanto. Parece ser mais um autoelogio para alcançar reconhecimento entre seus colegas racistas internet afora.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.