'Terrorista' e em crise, Islândia usa humor contra britânicos

Usando uma bola de neve, uma pistola feita de peças de Lego e chicletes, islandeses estão reagindo com humor ao fato de serem comparados a terroristas pelo governo britânico. Londres usou leis antiterror para congelar o patrimônio do banco islandês Landsbanki, depois que o primeiro-ministro Gordon Brown considerou "completamente inaceitável" que o governo de Reykjavik não tenha garantido os depósitos britânicos na instituição. Os islandeses ficaram indignados com esse tratamento a um país que nem possui Exército regular. "É tão injusto, e tão ridículo. Usar a lei do terrorismo contra a Islândia é como usar uma lei do terrorismo contra o Vaticano", disse o fotógrafo Thorkell Thorkelsson. "A diferença é que há mais armas no Vaticano." Thorkelsson convocou as pessoas a irem armadas ao seu estúdio para mostrar como o país é "perigoso". A aposentada Hulda Edelvy posou com um artefato para desgrampear papéis e um par de alicates. Um veterinário apareceu com uma "arma" para castração. A bola de neve, a arma de Lego e o chiclete também chamaram a atenção. Heba Soffia Bjornsdottir, organizadora da exposição, disse que a idéia era permitir que as pessoas expressassem sua raiva de forma criativa e positiva. "Superar isso vai demorar, eles realmente nos machucaram, nos apunhalaram pelas costas", disse ela. Brown tem sido muito elogiado, inclusive pelo recém-premiado Nobel de Economia Paul Krugman, por seu comportamento na atual crise financeira global, mas na Islândia muitos discordam. O país diz que o embargo dos bens do Landsbanki precipitou um colapso financeiro que contribuiu decisivamente com a falência do maior banco islandês, o Kaupthing. "Graças a Deus não há mais 'forças estáveis' (como Brown) por aí", disse Eggert Johannsson, dono de uma loja de peles que traz, na vitrine, um cartaz alertando a Brown e ao seu ministro das Finanças, Alistair Darling, que "seu crédito não é válido aqui". "Não esteamos felizes com Brown tentando se fazer de cavaleiro branco atacando a Islândia. Somos pequenos demais para que ele nos ataque", disse Johannsson. Alguns jovens lançaram o site www.indefence.is, com fotos de habitantes da ilha, inclusive crianças, segurando em suas casas cartazes com os dizeres "Não somos terroristas". Mais de 20 mil pessoas -- 7 por cento da população -- aderiram ao site em suas primeiras 12 horas no ar. "Gordon Brown injustificavelmente usou a lei antiterrorismo contra o povo da Islândia, para seu próprio ganho político de curto prazo", diz um texto no site. "Isso transformou uma situação grave em um desastre natural." O estudante de computação David Orn Johannsson, que tinha uma proposta de emprego do Kaupthing antes da falência, disse que a decisão britânica foi um sinistro sinal dos tempos. "As pessoas são capazes de qualquer coisa para dizerem que estão trabalhando contra o terrorismo. Estamos vendo o mundo se tornar algo sobre o que George Orwell escreveu em '1984'", afirmou.

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