Terrorista líbio é libertado e tem recepção de herói

Mentor do atentado de Lockerbie teria 3 meses de vida; libertação humanitária irritou EUA e família das vítimas

Reuters, AP E AFP, EDIMBURGO, O Estadao de S.Paulo

21 de agosto de 2009 | 00h00

A Justiça escocesa libertou ontem o líbio Abdelbaset Ali Mohamed al-Megrahi, mentor do ataque a um Jumbo da Pan Am que explodiu sobre a cidade de Lockerbie, em 1988, matando 270 pessoas. Megrahi, único condenado pelo atentado, foi recebido com festa por milhares de pessoas em Trípoli, na Líbia. A decisão de soltar Megrahi foi classificada como "um erro" pelo presidente americano, Barack Obama, e provocou indignação entre os parentes das vítimas do atentado, principalmente após a notícia de que ele foi recebido como um herói pelos líbios.A Escócia alegou "razões humanitárias" para libertar Megrahi, que tem um câncer terminal na próstata e, segundo médicos escoceses, teria três meses de vida. O terrorista foi condenado à prisão perpétua, mas ganhou a liberdade tendo cumprido oito anos da pena."Nós fizemos contato com o governo escocês para demonstrar nossa objeção", disse Obama. Segundo ele, Megrahi "deveria cumprir o resto da pena em prisão domiciliar". "Eu acho tão pavoroso, nojento e repugnante que não consigo encontrar palavras para descrever a libertação", disse Susan Cohen, que perdeu a filha de 20 anos no atentado. Segundo ela, "a libertação não tem nada a ver com compaixão", mas com o interesse da Escócia no fornecimento de petróleo da Líbia."Eu acho que ele deveria ser autorizado a ir para casa e para sua família passar seus últimos dias", disse Jim Swire, cuja filha também estava entre os mortos. Entre as vítimas que estavam a bordo do avião, 189 eram estudantes americanos que voltavam para Nova York às vésperas do Natal. Outras 11 pessoas morreram em solo, ao ser atingidas por destroços da explosão do Boeing 747.O secretário de Justiça da Escócia, Kenny MacAskill, disse que Megrahi não mostrou compaixão por suas vítimas, mas foi beneficiado pelos valores humanos dos escoceses e "enfrentará agora uma sentença imposta por um poder superior".Megrahi, um ex-agente do serviço de inteligência da Líbia, foi preso em 2001 com base, principalmente, no depoimento de um lojista de Malta que afirma ter vendido uma camisa para ele antes do atentado.Mais tarde, uma das bombas encontradas nos destroços da aeronave foi achada enrolada em pedaços da roupa que supostamente seria de Megrahi. Críticos da sentença chamam a atenção para a precariedade da prova usada pelo tribunal escocês para condená-lo."Eu disse nos termos mais claros possíveis e espero que todas as pessoas ouçam: tudo isto que eu tive de enfrentar foi por uma coisa que eu não fiz", afirmou ele. "Eu teria muito a ganhar e nada a perder se toda a verdade viesse à tona."Em Trípoli, o ex-prisioneiro é considerado uma vítima da campanha que o Ocidente tem promovido contra a Líbia. Por isso, a libertação de Megrahi foi festejada pela população como uma vitória moral.

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