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Teste de fidelidade

A primeira noite do casal Macron na casa do primeiro presidente dos EUA cumpriu suas promessas: vimos que Emmanuel Macron e Donald Trump gostam um do outro

O Estado de S.Paulo

25 Abril 2018 | 05h00

A primeira noite do casal Macron na casa do primeiro presidente dos EUA, George Washington, em Mount Vernon, cumpriu suas promessas. Elegância, beleza das paisagens, amabilidades e risos. Já sabíamos que Emmanuel Macron e Donald Trump gostam um do outro. Na terça-feira, 24, vimos imagens dessa estranha amizade: dois casais amigos brincando, batendo um nas costas do outro, como em uma peça de teatro.

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Nesta quarta-feira, 25, a festa continua, mas aos brindes e concertos de harpa serão adicionados episódios mais sérios: os dois devem revisar a “agenda comum” que estabeleceram. Reconhecemos a arte diplomática de Macron: com seus parceiros e seus inimigos, um chefe de Estado deve poder falar de tudo, até manter relações de estima com seu adversário, desde que a palavra seja absolutamente livre. Se surge um litígio, tenta-se superá-lo. Se não der, informa-se que o desacordo persiste, sem escondê-lo, voltando ao problema mais tarde, evitando uma ruptura.

Com Trump, a agenda de litígios é rica, apesar dos risos e dos tapinhas nas costas. Comércio, acordo sobre o clima e tarifas alfandegárias para aço e alumínio. Em 12 de maio, Trump terá de dizer se prorroga ou não o acordo nuclear com o Irã, que foi a “obra-prima” do governo de Barack Obama. 

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Assinado em 2015, ele obriga os iranianos a suspenderem, até 2025, o enriquecimento de urânio e a produção de plutônio. Em troca, o Irã obtém uma suspensão de sanções comerciais. Em resumo, o Irã renuncia ao desejo de se tornar uma potência nuclear. Torna-se o que era em 1970: 80 milhões de habitantes altamente instruídos e uma grande potência comercial. 

Na Europa, França, Alemanha e Grã-Bretanha saúdam o acordo. O Irã reabre suas portas para o grande comércio. A Europa saliva. Mas a atitude de Trump semeia consternação. E os europeus ficam sujeitos a um novo paradoxo: o Irã se comportou como um “bom aluno”.

Ele não procurou se dotar às escondidas de um arsenal nuclear. Por muitos anos, submeteu-se aos severos inspetores internacionais, desmantelou tudo o que lhe permitiria “militarizar” a energia atômica e, finalmente, conseguiu uma classificação de “satisfatório” da ONU. Mas Trump, que chega no final do espetáculo, não dá a mínima. Ele quer jogar o acordo no lixo.

Nas Coreias, uma outra partitura foi escrita. Inicialmente, a minúscula, fraca e pobre Coreia do Norte também havia assinado o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), o que não a impediu de buscar armas nucleares e, mais tarde, abandonar o tratado. 

Diferença. A Coreia do Norte, tranquila e cinicamente, realiza testes nucleares, em violação às regras da ONU e em desafio aos EUA. Trump, então, bombardeia a Coreia do Norte com tuítes grosseiros, zombando do pequeno grande homem de Pyongyang. Arrastando o país para a lama.

Esta disputa de palavras entre Trump e Kim Jong-un, o tirano norte-coreano, dura alguns meses. Então, de repente, tudo muda. O céu clareia. O sol brilha. Trump é todo o mel. Ele e Kim se encontrarão. E as sanções? E os mísseis nucleares lançados pelo “gordinho de Pyongyang”? Sim, é verdade, vamos ver, diz o americano.

Ao mesmo tempo, o Irã, que renunciou ao terrorismo por 20 anos e interrompeu seu programa nuclear desde 2015, continua sendo amaldiçoado por Washington, tratado como um pária, ameaçado de novas sanções. 

Convenhamos que o Irã não está errado em dizer que o Ocidente só respeita poder e força e morde a mão daqueles que se submetem a ele. No entanto, existe Macron. Como de costume, ele vai encarar com grande empenho o assunto das armas nucleares. Será que o amor louco de Trump e Macron e de Melania e Brigitte conseguirá resistir a esse teste? Provavelmente. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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