AP Photo/Lee Jin-man
AP Photo/Lee Jin-man

Teste de míssil da Coreia do Norte vai dificultar diálogo com EUA, dizem analistas

Os mísseis voaram 7.580 segundos sobre o país e suas águas territoriais, atingindo alvos a 1.500 km de distância, informou a Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA)

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2021 | 10h00

A Coreia do Norte realizou testes bem sucedidos de um novo míssil de cruzeiro de longo alcance durante o fim de semana, anunciou nesta segunda-feira, 13, a agência estatal de notícias, que o chamou de “arma estratégica de grande importância”. A ação, que provocou críticas dos Estados Unidos e dos países vizinhos, foi vista por analistas como possivelmente a primeira arma deste tipo com capacidade nuclear do país.

Os lançamentos ocorreram no sábado e domingo e foram supervisionados por altos funcionários do regime, informou a Agência Central de Notícias da Coreia (KCNA).

Os mísseis voaram 7.580 segundos sobre a Coreia do Norte e suas águas territoriais, atingindo alvos a 1.500 km de distância, acrescentou.

Imagens publicadas pelo jornal Rodong Sinmun mostram o momento em que um míssil saiu de um dos cinco tubos em um veículo de lançamento em meio a uma bola de fogo, assim como um míssil em voo horizontal.

Os mísseis de cruzeiro da Coreia do Norte geram normalmente menos interesse do que os mísseis balísticos porque não são explicitamente proibidos aos olhos das Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Analistas destacaram que a arma representa um avanço importante na tecnologia bélica norte-coreana, que aumenta sua capacidade de evitar os sistemas de defesa.

“Este seria o primeiro míssil de cruzeiro na Coreia do Norte a ser explicitamente designado como um papel 'estratégico'”, disse Ankit Panda, um membro sênior do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, sediado nos EUA. "Este é um eufemismo comum para o sistema nuclear-capaz".

A agência estatal também afirmou que "a eficiência e a funcionalidade da operação do sistema de armas foram confirmadas como excelentes".

Ainda segundo a agência, o desenvolvimento do sistema de mísseis tem "importância estratégica", dando à Coreia do Norte "outro meio de dissuasão" para se proteger e "conter fortemente as manobras militares das forças hostis".

Não está claro se a Coreia do Norte dominou a tecnologia necessária para construir ogivas suficientemente pequenas para serem transportadas num míssil de cruzeiro, mas o líder Kim Jong-Un disse no início deste ano que o desenvolvimento de bombas menores é seu objetivo principal.

As duas Coreias estão presas numa corrida armamentista acelerada que os analistas temem que deixe a região repleta de novos e poderosos mísseis.

Ameaça

O exército dos Estados Unidos afirmou que os lançamentos representam "ameaças para os vizinhos da Coreia do Norte e outras nações".

"Esta atividade evidencia que a República Popular Democrática da Coreia continua desenvolvendo seu programa militar, o que representa ameaças para os vizinhos e para a comunidade internacional", destacou o Comando Indo-Pacífico americano em um comunicado.

Os mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos de curto alcance, que podem ser armados com bombas convencionais ou nucleares, são particularmente desestabilizadores em caso de conflito, uma vez que pode não ser claro que tipo de ogiva transportam, disseram os analistas.

O isolado país comunista enfrenta várias sanções internacionais por seus programas nucleares e balísticos, que continuam em desenvolvimento.

Também mantém a produção de mísseis de cruzeiro, que já foram testados em ocasiões anteriores.

O novo míssil "representa uma ameaça considerável", afirmou à AFP Park Won-gon, professor de Estudos Norte-Coreanos na Eha Womans University.

"Se o Norte miniaturizou de modo suficiente uma ogiva nuclear, poderia carregá-la em um míssil de cruzeiro", disse Park.

Jeffrey Lews, do Instituto de Estudos Internacionais de Middlebury , escreveu no Twitter que estes mísseis seriam capazes de lançar ogivas contra alvos "em toda Coreia e Japão".

"Um míssil de cruzeiro de ataque em terra e alcance intermediário é uma capacidade bastante séria", completou.

Os militares da Coreia do Sul não revelaram se tinham detectado os últimos testes do Norte, mas disseram na segunda-feira que vão realizar “uma análise detalhada” em cooperação com os Estados Unidos.

O governo japonês afirmou que está preocupado e indicou que um míssil deste alcance "representa uma ameaça à paz e à segurança do Japão e da região".

Os lançamentos aconteceram pouco depois de um desfile relativamente discreto em Pyongyang para celebrar o 73º aniversário da fundação do país.

Os lançamentos de mísseis no fim de semana foram os primeiros do país desde março.

Diálogo estagnado 

Além disso, Pyongyang não executa um teste nuclear ou lançamento de míssil balístico intercontinental desde 2017.

As negociações nucleares com o governo dos Estados Unidos estão paralisadas desde 2019 e o país não demonstra disposição de abandonar o arsenal atômico. Além disso, negou os esforços da Coreia do Sul para reiniciar o diálogo.

Sung Kim, o enviado do presidente americano, Joe Biden, para a Coreia do Norte, expressou diversas vezes a vontade de ter reuniões com representantes norte-coreanos.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) afirmou em agosto que Pyongyang parece ter reativado o reator nuclear de Yongbyon e alertou que se trata de um fato "profundamente preocupante".

Na semana passada, a Coreia do Sul testou um míssil balístico de fabricação própria lançado por submarino, uma tecnologia que o Norte pretende desenvolver.

Pyongyang exibiu quatro mísseis do tipo em janeiro, durante um desfile militar supervisionado pelo dirigente norte-coreano, Kim Jong Un. A KCNA afirmou que era a "arma mais poderosa do mundo".

A Coreia do Norte também divulgou fotografias de lançamentos subaquáticos, o mais recente em 2019, mas os analistas acreditam que foram lançados de plataformas fixas e não de um submarino.

A revelação do teste ocorreu apenas um dia antes dos negociadores nucleares de Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão se reunirem em Tóquio para discutir formas de quebrar o impasse sobre a desnuclearização com a Coreia do Norte.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, deve visitar Seul na terça-feira para conversações com o seu homólogo, Chung Eui-yong

A administração Biden afirmou estar aberta à diplomacia para conseguir a desnuclearização da Coreia do Norte, mas não demonstrou qualquer vontade de aliviar as sanções.

Uma reativação das linhas directas inter coreanas em julho suscitou esperanças de um reinício das negociações, mas o Norte deixou de responder aos telefonemas quando os exercícios militares anuais Coreia do Sul-EUA começaram, no mês passado, o que Pyongyang tinha avisado que poderia desencadear uma crise de segurança. 

Nas últimas semanas, a Coreia do Sul tornou-se o primeiro estado não nuclear a desenvolver e testar um míssil balístico lançado por submarinos. / AFP E REUTERS

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.