Teste de Pyongyang desafia novo líder chinês

Para melhorar laços com os Estados Unidos, Xi Jinping poderia assumir uma posição mais dura com a Coreia do Norte, mas correrá o risco de desestabilizar o país aliado

JANE PERLEZ - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2013 | 02h05

O teste nuclear feito pela Coreia do Norte, apesar das advertências da China, deixa o novo líder chinês, Xi Jinping, com a seguinte opção: incomodar um pouco a Coreia do Norte apoiando a decisão da ONU de intensificar as sanções contra o país ou realmente pressionar o regime e cancelar as remessas de petróleo e investimento que mantêm a Coreia do Norte à tona?

O teste implica um desafio de política externa importante para Xi, que já afirmou que gostaria que EUA e China desenvolvessem "um relacionamento entre duas grandes potências". O modo como ele vai lidar com a Coreia do Norte poderá mostrar aos EUA que tipo de líder ele será e o tipo de relacionamento que pretende estabelecer com Washington.

Xi já demonstrou ser mais nacionalista do que seu predecessor, Hu Jintao, tendo deixado clara a determinação da China de sair vitoriosa na crise em que os chineses querem se apossar do controle de ilhas administradas pelo Japão. E ele também manifestou um interesse consideravelmente maior no Exército da China, visitando bases e tropas nos últimos dois meses, exortando os soldados a se prepararem para combater.

Para melhorar as relações estremecidas com os EUA, Xi poderia assumir uma posição mais dura com a Coreia do Norte, usando a influência da China sobre o governo norte-coreano para que ele contenha seu programa nuclear. Se Xi não colaborar no sentido de controlar os norte-coreanos, quase certamente verá uma aceleração dos esforços dos EUA com vistas à instalação de sistemas de defesa antimísseis balísticos no Nordeste Asiático, trabalhando especialmente com o Japão, situação inaceitável para a China.

Mas, segundo analistas americanos e chineses, se Xi adotar as medidas desejadas pelos Estados Unidos contra a Coreia do Norte, há o risco de desestabilizar a Coreia do Norte, acelerando seu colapso e levando à criação de uma Península Coreana unificada que pode se transformar num aliado americano. Esta não é uma opção desejada pelo líder chinês.

Na verdade, a primeira reação do governo chinês foi branda e não sugeriu nenhuma mudança imediata em termos de política e de atitude para com a Coreia do Norte. Segundo comunicado no site do Ministério do Exterior chinês, o governo manifestou sua "total oposição" ao teste "insistindo vigorosamente" para a Coreia do Norte ater-se à sua promessa de desnuclearização.

Depois do segundo teste realizado pela Coreia do Norte, em 2009, o governo Obama execrou Hu Jintao, acusando-o de "cegueira deliberada" com relação às ações daquele país.

"Com Hu não mais envolvido, o governo americano está concentrado em saber se Xi Jinping se mostrará mais atento às preocupações dos EUA no campo da segurança", diz Jonathan Pollack, diretor do John L. Throrton China Center, na Brookings Institution. "O modo como Xi responderá pode ser uma primeira indicação, importante, de suas prioridades no campo da política externa e de sua disposição em cooperar de modo mais aberto e pleno com Washington e Seul do que seu predecessor."

Um debate mais intenso sobre a Coreia do Norte já vem ocorrendo nos círculos de política externa da China, mas se a opinião daqueles que pregam uma política mais dura com relação aos norte-coreanos vai prevalecer é algo muito incerto.

Apesar da maior preocupação de alguns setores com o comportamento da Coreia do Norte, o medo de perder um Estado-tampão ainda prevalece entre os círculos do poder na China, particularmente o Exército, segundo Jia Qingguo, professor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim, que defende uma nova política com relação à Coreia do Norte.

"Está melhor do que antes, mas ainda é difícil superar" o modo de pensar dessas pessoas, diz ele. "Muitos continuam com a crença antiga de que a Coreia do Norte serve como proteção estratégica, acreditando que os invasores americanos marcharão pela Coreia do Norte para chegar à China."

O professor, que visitou Washington no mês passado, diz que a China deveria usar essa obstinada Coreia do Norte como ponto inicial de um relacionamento mais positivo, de cooperação, com os EUA. "Temos de trabalhar juntos para impedir que a Coreia do Norte se torne uma potência nuclear."

Zhu Feng, professor de relações internacionais na Universidade de Pequim,que também defende uma posição mais dura, diz que relatos na mídia chinesa sublinhando a necessidade de punir a Coreia do Norte são um sinal encorajador. "São indicações um pouco raras e não me lembro de algum outro momento nos últimos dez anos em que Pequim se exprimiu de modo inequívoco e enérgico contra os testes nucleares de Pyongyang", diz ele.

Para o professor Zhu, Hu Jintao estava "indeciso" quanto à Coreia do Norte. Embora Xi seja considerado um líder "mais nacionalista", é também "mais pragmático" e percebe que Pequim sem "opções no sentido de mais boa vontade".

A China concordou em se aliar aos EUA e apoiar novas sanções da ONU contra Pyongyang depois do teste de lançamento de um míssil em dezembro que atingiu as Filipinas.

Em resposta àquela decisão, a Coreia do Norte fez um ataque feroz contra a China e prometeu realizar seu terceiro teste nuclear. Segundo analistas chineses, o país quase certamente apoiará um novo pacote de sanções.

Mas, apesar de toda indignação manifestada pela China - cultural e politicamente os dois governos se distinguem dos demais - Pequim deve permanecer um aliado firme da Coreia do Norte, disse Stephanie Kleine-Ahlbrandt, diretora para o Nordeste da Ásia e assessora para a China no International Crisis Group em Pequim.

"Os tradicionalistas do Exército de Libertação Popular e o Departamento de Ligação Internacional do Partido Comunista controlam a política da Coreia do Norte", ela afirma. "O relacionamento político entre China e Coreia do Norte neste momento está na pior fase, mas as prioridades da China na Península Coreana são no sentido de não haver guerra, nenhuma instabilidade e sem armas nucleares continuam nesta ordem."

A China estava disposta a conviver com a Coreia do Norte com armas nucleares desde que seu arsenal fosse pequeno e sua condição de país nuclearizado não resultasse numa corrida armamentista, diz ela.

Mas este terceiro teste nuclear faz com que a Coreia do Norte fique mais próxima de construir uma arma atômica que poderá alcançar os EUA, embora isso vá demorar muitos anos, disse Siegfried S. Hecker, ex-diretor do Laboratório Nacional de Los Alamos e diretor do Center for International Security and Cooperation na universidade de Stanford. Ele visitou a Coreia do Norte há dois anos e viu as instalações de enriquecimento de urânio do país.

Se a China não conseguir refrear a Coreia do Norte, os Estados Unidos ficarão cada vez mais impacientes e aumentarão seus recursos de defesa na Ásia, como também os dos seus aliados, disse Hecker.

"Para mim, está bastante claro que ao realizar um terceiro teste nuclear bem sucedido, ameaçando com um míssil capaz de transportar uma ogiva nuclear, a Coreia do Norte dá aos Estados Unidos, à Coreia do Sul e ao Japão uma boa razão para aperfeiçoarem seus sistemas de defesa contra mísseis balísticos na região - o que deve dar ao governo chinês motivo para refletir". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É JORNALISTA

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