Teste reforça posição de Obama contra arsenais

Para especialistas, crise norte-coreana volta a colocar no topo da agenda a proliferação nuclear, assunto considerado prioritário pela Casa Branca

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

26 de maio de 2009 | 00h00

Para um presidente que no mês passado, durante a cúpula de 60 anos da Otan, pediu "um mundo livre de armas nucleares", o teste norte-coreano de ontem poderia significar um banho de água fria. Analistas, porém, evitam conclusões imediatas. Barack Obama já teria demonstrado certa herança "churchilliana", afirmam, e a nova crise com Pyongyang pode servir como oportunidade única para, finalmente, levar a questão nuclear ao topo da agenda internacional.Com o fim da Guerra Fria, o controle de armamento e o temor de um holocausto nuclear - ou Destruição Mútua Assegurada (MAD), segundo o jargão militar - "deixaram o centro do palco", disse ao Estado Lawrence Korb, do liberal Center for American Progress. "Mas hoje a proliferação é questão-chave nos pontos mais sensíveis: Irã, Paquistão, Israel e o mundo árabe, Rússia, terrorismo, etc." Em seu discurso na Otan, em 5 de abril, Obama admitiu que o objetivo de esvaziar arsenais era "um sonho" (horas depois, Pyongyang testaria um novo míssil). Mas falar sobre proliferação à aliança dos tempos da Guerra Fria foi "extremamente simbólico", afirma Korb, e um indicativo da importância que Obama dá ao assunto.Se o destaque dado ao tema pode mudar com o teste de ontem, o modo como é conduzida a política contra a proliferação nuclear deverá permanecer inalterado, afirma o especialista. O conservador James Pinkerton, do centro New American Foundation, compartilha a opinião em relação à Coreia do Norte. "Obama simplesmente recicla as políticas de George W. Bush, com porretes e cenouras ineficientes", afirma.Quanto ao Irã, cujo programa nuclear ocupa o centro dos esforços anti-proliferação de Washington, a estratégia também deverá ser mantida. "Afastou-se a ameaça de retaliação iminente, presente no governo Bush, por uma abordagem com base em sanções e incentivos ao diálogo", explica Korb.FOGO AMIGOOs esforços dos EUA para reduzir a ameaça nuclear, entretanto, não se limitam a países párias, como Coreia do Norte e Irã. Desde o inicio do governo Obama, tem crescido a pressão sobre aliados para que seus programas nucleares sejam submetidos a um maior controle.O caso israelense seria o principal exemplo. Michael Hirsh, comentarista da Newsweek, afirma que o Departamento de Estado começou a pressionar israelenses a aderir ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). O objetivo seria retirar argumentos de Teerã para desrespeitar leis internacionais.Outro aliado sob pressão é o Paquistão, único país muçulmano com arsenal atômico. O programa paquistanês é dirigido contra a Índia, rival que também detém a bomba. Mas Washington tenta convencer Islamabad mudar o foco da fronteira leste, com Nova Délhi, para a divisa oeste, com o Afeganistão.No entanto, reduzir arsenais no mundo não é a parte mais difícil dos planos de Obama, segundo especialistas. Em 1980, havia cerca de 70 mil ogivas. Hoje, elas são pouco mais de 10 mil. Os "dois grandes", EUA e Rússia, devem ainda até o fim do ano firmar um novo acordo para reduzir o armamento.Um dos grandes temores dos EUA é que inimigos adquiram a bomba - incluindo organizações terroristas. Nesse sentido, será decisiva a atuação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), cujo chefe, Mohamed ElBaradei, deve ser substituído em breve. Outro motivo de preocupação são os testes nucleares como o de ontem. Obama diz que submeterá ao Congresso um tratado assinado por Bill Clinton que proíbe testes. O texto já havia sido votado em 1999, mas acabou rejeitado pelo Senado - sinal de que o "sonho" de Obama poderá sofrer baixas até mesmo dentro dos EUA.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.