Testemunha de assassinato de opositor reaparece na Argentina

Cristina enfrenta uma onda de greves de policiais, oficiais de fronteira e unidades do Exército e da Marinha

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2012 | 03h07

Com as mãos amarradas nas costas e com sinais de espancamento, reapareceu na noite da quinta-feira Enrique Severo, testemunha crucial das investigações sobre o assassinato, em 2010, de Mariano Ferreyra, jovem militante do Partido Operário (grupo trotskista de oposição ao governo da presidente Cristina Kirchner). Ele teria sido morto por sindicalistas vinculados ao kirchnerismo.

Severo esteve 24 horas desaparecido, exatamente no dia em que teria de prestar depoimento no tribunal. Ele foi sequestrado por desconhecidos. Seu depoimento foi marcado para terça-feira. A oposição acusou o governo Kirchner de não fornecer proteção policial a uma testemunha fundamental de um processo que investigava um assassinato político.

No entanto, o ministro da Justiça Julio Alak alegou que Severo não contava com proteção porque "não a solicitou". O Partido Operário, comandado por Jorge Altamira, ex-cunhado da ex-prefeita Marta Suplicy, realizou uma manifestação na Praça de Maio contra Cristina, considerada "representante do neoliberalismo".

O sequestro de Severo é apenas um de uma sequência de percalços enfrentados por Cristina nos últimos dias. Seu governo também enfrenta uma greve da Guarda-Marinha, que na Argentina tem a função de policiamento dos portos e dos bairros próximos ao litoral e vias fluviais - como La Boca e Puerto Madero, na capital. Os grevistas reclamam do corte de até 70% de salários e adicionais decretado por Cristina.

Greves. Também entraram em greve os integrantes da Gendarmería, corpo de segurança destinado à vigilância das fronteiras, do policiamento do interior e da dissuasão de manifestações. A paralisação atingiu ainda um pequeno grupo de suboficiais da Marinha. A polícia da Província de Buenos Aires, embora não tenha entrado em greve, também exige aumento salarial.

O deputado kirchnerista Juan Cabandié afirma que a greve da Guarda-Marinha e da Gendarmería "coloca a democracia em jogo" e esconde as intenções de destituir Cristina. Segundo ele, por trás das greves estaria o jornal Clarín, crítico à presidente.

Até o apagão no estádio Centenário, de Resistência, que provocou a suspensão do clássico entre Brasil e Argentina, foi encarado pelos kirchneristas como um sinal de "golpe" contra Cristina. A presidente foi criticada pela União Cívica Radical (UCR) pela remoção de Leandro Despouy, diretor da Auditoría General de la Nación, que fiscaliza as contas públicas. Despouy estava há meses na mira do governo por suas investigações sobre corrupção no governo. A UCR, principal minoria no Parlamento, que em 2002 designou Despouy, diz que não aceita sua exoneração.

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