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Testemunhas de crimes na Colômbia vivem drama

Mais de 80% dos deslocados pela luta armada entre forças do governo e grupos armados colombianos são mulheres; muitas fogem para o Brasil

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2014 | 02h03

A colombiana Dina Vensaa, de 36 anos, driblou a violência da pequena cidade de Buenaventura, onde nasceu e viu crescer o domínio dos narcotraficantes, até o filho se tornar adolescente. "As Farc (a guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) dão drogas e dinheiro aos meninos para cooptá-los", diz.

Aos 17 anos, o menino testemunhou a chacina de outros quatro garotos. O crime foi tão chocante que ele decidiu contar para a mãe, o que os transformou em alvo da guerrilha. Dina fugiu com o filho e o cunhado, também cooptado pelas Farc, para Bogotá, mas criminosos passaram a persegui-los.

Com histórias semelhantes, mais de 5,7 milhões de colombianos tiveram de deixar suas casas, fugindo das ameaças de traficantes, guerrilheiros e paramilitares, segundo o Acnur, a agência da ONU para refugiados.

Mais de 80% dos deslocados são mulheres. Dados divulgados pelo Ministério da Defesa da Colômbia esta semana apontam que 394 mulheres foram assassinadas e outras 261 sequestradas pelas Farc nos últimos 12 anos, mas os conflitos envolvem dezenas de grupos armados. Além de assassinatos, elas são vítimas de estupro.

Muitos dos que sobrevivem têm de sair do país - quase 400 mil colombianos estão refugiados. No Brasil, os colombianos são o segundo maior grupo de refugiados, atrás apenas dos sírios, que chegaram recentemente fugindo da guerra entre rebeldes e o regime de Bashar Assad.

"Eles (as Farc) não sossegariam enquanto não nos matassem a todos", diz Dina. Depois de um mês escondidos em Bogotá, os criminosos localizaram o cunhado, de 17 anos, e o mataram com 57 facadas em uma emboscada. Dina chora ao se lembrar dos detalhes daquela noite, quando decidiu fugir para o Brasil com o filho. "O governo diz estar negociando com eles, mas não vemos nada. Cometem os crimes mais cruéis, mas a polícia não os pega. Na Colômbia é assim. Se você os denuncia, você morre."

Dina vivia no bairro de Nadita. "Cresci com medo. Em Nadita, você sai e tem um morto, uma bomba, uma bala perdida... Se você mora aqui, não pode ir ali, porque cada território é controlado por diferentes grupos e se você, por distração, cruza a linha inimiga, eles te estupram e depois te matam. Aconteceu com a filha da minha vizinha", diz. A violência contra a mulher fez com que Dina mandasse as filhas para viver com a avó em outra região - a de 18 anos estuda medicina e a de 14 anos integra uma orquestra sinfônica. O temor pela própria vida e a do filho a impede de voltar à Colômbia, onde tinha um bom emprego numa empresa aduaneira. Há 2 anos ela não vê as filhas.

Dina recebeu R$ 600 da ONG Cáritas pelos primeiros três meses no Brasil e teve ajuda para obter documentos, como carteira de trabalho. Hoje trabalha como diarista, e o que ganha mal dá para pagar sua parte do aluguel de R$ 1.200 do quitinete que divide com uma amiga. Em fevereiro, com a promessa de que receberia 1 mil num emprego na Guiana Francesa, viajou com as despesas pagas pelo suposto empregador. Segundo Dina, ela foi escravizada numa casa de prostituição. Com a ajuda de uma comerciante que conhecera no Oiapoque, antes de atravessar para a Guiana, fugiu do cativeiro sete dias depois e voltou a São Paulo. "Fiquei cinco dias escondida na fronteira. Meu corpo guarda as marcas que essa tragédia me deixou", diz. "Perdi tudo. Casa, trabalho, o controle da minha vida, minha dignidade, minhas filhas, meu filho", diz. No Brasil, o filho voltou a se envolver com o tráfico e está preso há 8 meses.

Ativista ganha 'Nobel humanitário'

Há mais de 4,5 milhões de mulheres deslocadas pelos conflitos na Colômbia. Metade delas já sofreu algum tipo de abuso sexual ou violência física por grupos armados. São as principais vítimas dos narcotraficantes. 

"Os estupros e esquartejamentos tornaram-se armas de guerra para para demarcar território", diz a colombiana Glória Amparo Arboleda Murillo, da ONG Rede Borboletas. Ela trabalha na defesa de mulheres afetadas pelo conflito armado no país e é a ganhadora do Prêmio para Refugiados 2014, uma espécie de prêmio Nobel humanitário concedido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), que será anunciado hoje em Genebra, na Suíça.

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