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Teto de vidro francês

Armas francesas são fator de desestabilização no Oriente Médio, denuncia Teerã

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2019 | 05h00

A França gosta de ser apreciada. Nem sempre consegue. Emmanuel Macron, jovem, tolerante, político nem à esquerda, nem à direita e, por alguns meses admirado pelos círculos internacionais, está em vias de avaliar as sutilezas da diplomacia mundial.

Na semana passada, o líder do Movimento Cinco Estrelas, partido populista italiano, acusou Paris de praticar uma espécie de neocolonialismo em suas antigas colônias da África (Senegal, Costa do Marfim, Gabão, etc). 

Agora chega uma nova salva de rancores. Que partiu do Irã. O que detonou o ataque? Teerã está furioso porque a França se declarou disposta a votar a favor das sanções contra o Irã se nenhum avanço ocorrer nas discussões entre os governos francês e iraniano sobre o programa balístico do Irã.

A reação dos dirigentes iranianos é compreensível. O país dedicou anos a demonstrar que suas pesquisas nucleares não envolvem nada que seja beligerante. E conseguiu provar sua boa-fé graças aos europeus, entre outros a França. A chegada de Donald Trump à Casa Branca colocou esse acordo em questão. Os Estados Unidos, amigos de Israel e da Arábia Saudita, se retiraram do acordo nuclear iraniano e reeditaram as sanções que haviam sido adotadas contra o país, ameaçando golpear financeiramente os europeus que continuarem a realizar negócios com o Irã.

Nesse episódio, a França apoiou Teerã. Mas agora surge um novo braço de ferro entre europeus e iranianos que não tem a ver com a bomba atômica, mas com o poder balístico do Irã. E desta vez Paris não partiu em defesa dos iranianos. Pelo contrário, o ministro do Exterior francês afirmou que a França vai impor sanções se nenhum avanço for registrado nas discussões entre os dois países sobre os mísseis balísticos iranianos. A resposta furiosa dos iranianos foi: “Nosso potencial balístico não é negociável”.

A querela se intensificou com os iranianos atacando violentamente a França numa outra frente. O Ministério do Exterior do Irã declarou oficialmente que “as vendas de armas francesas, sofisticadas e ofensivas, em regiões sensíveis, são um fator de desestabilização do Oriente Médio”.

Tática

No caso, percebemos a tática preferida dos países que têm um contencioso com a França. Eles atacam imediatamente Paris num outro campo, ou seja, apontam para o descumprimento de determinadas regras da vida internacional por parte dos franceses.

Nos últimos dias, foram propostos vários casos: a Itália fustigou a França que se permite continuar com a colonização da África 60 anos depois do fim do império colonial francês. Esta semana, no Cairo, Macron encontrou-se com o marechal Abdel al-Sissi e fez algumas observações sobre os “direitos humanos”. Sissi permaneceu imóvel e silencioso. Mas na comitiva não faltaram os sarcasmos:

“Ele vem aqui nos criticar sobre os direitos humanos, mas em Paris permite que a polícia atire contra os pacíficos ‘coletes amarelos’”. 

Agora é Teerã que descarrega sua artilharia e lamenta que as fábricas francesas produzam excelentes aviões, canhões extraordinários, blindados e barcos rápidos como um raio com os quais países impuros como Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos atacam os iranianos, o Hezbollah e os iemenitas.

Enfim, cada um tem razão e ao mesmo tempo está errado. Vale a pena citar a frase de Blaise Pascal, o genial matemático e escritor (século 17): “Verdade o lado de cá dos Pirineus, erro do lado de lá”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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