Tamir Kalifa/Reuters
Tamir Kalifa/Reuters

Texas investiga 5ª explosão em 18 dias; série de ataques deixa 2 mortos e 5 feridos

Em Austin, cidade onde aconteceram quatro das cinco explosões, moradores dizem ter alterado rotina e afirmam ter medo de sair de casa; investigadores federais temem que serial bomber esteja fazendo testes para um atentado maior

O Estado de S.Paulo

20 Março 2018 | 09h52

AUSTIN, EUA - A série de cinco ataques a bombas em 18 dias mudou a rotina e deixou apavorados moradores de Austin, capital do Texas. Muitas pessoas afirmam que deixaram de sair de casa e têm cuidado redobrado para abrir embalagens e até para olhar por onde pisam enquanto caminham. 

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Os atentados do serial bomber deixaram até agora dois mortos e cinco feridos e transformaram Austin em um quartel-general de investigadores da polícia estadual e do FBI. A polícia pediu aos moradores que fiquem em casa quando possível e evitem manusear embalagens.

O último ataque ocorreu nesta terça-feira, 20, numa central de distribuição da Fedex no Texas. Um pacote com destino a Austin explodiu quando era manuseado por um funcionário, que ficou ferido. No domingo, duas pessoas ficaram feridas após a explosão de um pacote com explosivos que estava ligado a um detonador. O fio, praticamente invisível, se estendia pela rua. 

Na terça-feira, dia 20, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que a pessoa por trás dos ataques é alguém “muito, muito doente”, e prometeu levar “as investigações até o fim” para descobrir sua identidade.

Em Austin, ações simples, como pegar um pacote na porta de casa ou dar uma volta na rua, tornaram-se um pesadelo para muitos habitantes. “Esse tipo de situação te deixa em estado de alerta constante”, afirmou ao jornal The New York Times o aposentado Thad Holt, de 76 anos, que vive a duas quadras de onde ocorreu o atentado no domingo. “Eu tenho evitado sair de casa, pois não me parece seguro.”

Muitos moradores de Austin começaram a andar atentos, com os olhos voltados para o chão, em busca de possíveis sinais de fios misteriosos ou bolsas e mochilas suspeitas nas calçadas. “Não podemos nos isolar da vida, nos esconder, mas é preciso ter cautela, andar com cuidado nas ruas”, disse Charlie Cook, de 73 anos, que mora em Travis Country, a poucos quarteirões de onde a bomba explodiu no domingo. “Eu não acho que vamos mudar nosso estilo de vida, mas nossa rotina vai sofrer.”

Richard Herrington, que também mora no bairro onde ocorreu a explosão, disse que ele e sua família tinham ido caminhar na tarde de domingo e passaram pela rua onde a bomba explodiu. “Poderíamos facilmente ter passado por ela”, disse. “É aterrorizante pensar nisso.”

A Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor Negra (NAACP, na sigla em inglês), a mais importante organização de defesa dos direitos civis nos EUA, emitiu um comunicado afirmando que os ataques são um exemplo de “terrorismo doméstico” e pedindo “vigilância, diligência e cautela para todas as comunidades em Austin”. 

Sem pistas. Sem nenhum suspeito nem motivo aparente, residentes e policiais não sabem quando ou onde a próxima explosão pode acontecer. A mudança de métodos e a sofisticação das bombas tem desconcertado os investigadores locais, estaduais e federais. 

Segundo fontes ouvidas pelo New York Times, o FBI acredita que o serial bomber possa estar fazendo testes. “É possível que ele esteja testando várias formas de ataque para um atentado com mais visibilidade”, disse Christopher H. Combs, agente especial encarregado do escritório do FBI em San Antonio. 

Randall Rogan, professor da Wake Forest University e especialista em análise forense, afirmou ao jornal Washington Post que o atentado de domingo pode ser um divisor de águas. “O uso de um fio quase invisível como gatilho é uma expansão de sofisticação e, provavelmente, um teste para algo maior que virá no futuro”, disse ele. 

Rogan trabalhou com o FBI no caso do Unabomber, entre 1978 e 1995. Ele afirmou que em breve o serial bomber deve fazer contato com a polícia ou divulgar algum tipo de comunicado ou manifesto. “Alguma coisa vai aparecer, em breve.”

UNABOMBER.

Theodore Kaczynski nasceu em Chicago em maio de 1942. Era um garoto recluso e aluno exemplar. Obcecado por matemática, ingressou em uma classe de lógica avançada e concluiu o ensino médio com 15 anos. Em 1958, foi aceito na Universidade de Harvard. Em 1973, mudou para uma casa nas montanhas em Lincoln, no estado de Montana. Estudou técnicas de sobrevivência e iniciou uma vida autossuficiente, cortando laços com a sociedade. 

Ted começou pequenos atos de sabotagem e, em 1978, fez seu primeiro ataque, com uma bomba caseira, à Universidade Northwestern. O FBI e outras agências batizaram o caso de Unabom: fusão de “bombardeio a universidades e linhas aéreas”, em inglês. 

Em 1995, Kaczynski enviou um manifesto com 35 mil palavras para os jornais The New York Times e Washington Post, justificando seus atos. O FBI investigou as cartas e, com a ajuda do irmão de Kaczynski, David, prendeu o terrorista em 1996. Ele foi condenado à prisão perpétua e está em um presídio de segurança máxima no Colorado. / NYT, W.POST e AFP

 

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