Textos em lixão expõem carnificina em Haditha

Segundo documentos secretos, para marines, morte de iraquianos era algo corriqueiro

BAGDÁ, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2011 | 03h07

Um de cada vez, os fuzileiros navais sentaram-se, prometeram contar a verdade e começaram a conceder entrevistas secretas sobre um dos episódios mais horripilantes do período em que os americanos estiveram no Iraque: o massacre de civis iraquianos da cidade de Haditha cometido pelos marines.

"Quer dizer, independentemente de ser resultado da nossa ação ou da ação de outras pessoas, encontrar 20 corpos com as gargantas cortadas, sabe, 20 corpos decapitados, 20 corpos ali, outros 20 lá", disse aos investigadores o coronel Thomas Cariker, que atuava como comandante na Província de Anbar na época, ao descrever o caos do Iraque. Ele disse que, às vezes, as mortes eram causadas por "ataques com granadas contra um posto de controle, enfim, danos colaterais aos civis".

As 400 páginas de interrogatórios transcritos, antes tratadas como segredos de guerra, deveriam ter sido destruídas enquanto os últimos soldados americanos se preparam para deixar o Iraque. Em vez disso, foram descobertas por um repórter do New York Times num lixão nos arredores de Bagdá, em meio a pilhas de outros documentos confidenciais, incluindo mapas militares mostrando as rotas percorridas pelos helicópteros e o alcance dos radares. Um funcionário estava queimando as páginas, usando-as como combustível para a fogueira na qual cozinhava um peixe defumado.

Os documentos - muitos marcados como secretos - formam parte da investigação interna do Exército e confirmam boa parte daquilo que ocorreu em Haditha, cidade às margens do Eufrates onde os fuzileiros mataram 24 iraquianos, incluindo um homem de 76 anos numa cadeira de rodas, além de mulheres e crianças, algumas delas de colo.

Ressentimento. O caso de Haditha tornou-se um momento de definição na guerra, ajudando a consolidar uma duradoura desconfiança dos iraquianos em relação aos americanos e o ressentimento diante do fato de nenhum marine ter sido condenado.

Mas os relatos são também chocantes por causa daquilo que revelam a respeito do extraordinário estresse a que foram submetidos os soldados que serviram no Iraque, suas frustrações e os frequentemente dolorosos encontros com uma população que eles não compreendiam. Nas próprias palavras deles, o relatório documenta a natureza desumanizadora da guerra, na qual os fuzileiros passaram a encarar a descoberta de 20 civis mortos como algo corriqueiro, digno de pouca atenção.

Os civis iraquianos eram mortos o tempo todo. No seu depoimento, o general Steve Johnson, comandante das forças americanas em Anbar, descreveu estas mortes como "o custo da nossa atuação".

Os depoimentos mostram que o estresse do combate deixou alguns soldados paralisados. As tropas, traumatizadas com a crescente violência e sentindo-se constantemente sitiadas, tornaram-se cada vez mais sensíveis e explosivas, matando um número cada vez maior de civis nos encontros acidentais. Outros soldados se tornaram tão insensíveis e acostumados às mortes que chegaram a disparar deliberadamente contra civis iraquianos enquanto os colegas tiravam fotos, sendo levados à corte marcial.

No episódio de Haditha, as acusações contra seis dos marines acusados foram retiradas; um deles foi absolvido e o último caso contra um fuzileiro envolvido deve ser julgado no ano que vem. Esta impressão da impunidade americana acabou sendo responsável por minar todas as chances da permanência de soldados dos EUA no Iraque, pois os iraquianos não permitiram que eles ficassem a não ser que fossem submetidos às leis e tribunais do país - condição que a Casa Branca não pôde aceitar.

Ao saber dos documentos que foram encontrados, o coronel Barry Johnson, porta-voz do Exército americano no Iraque, disse que muitos dos documentos ainda eram confidenciais e deveriam ter sido destruídos.

O Exército disse não saber de qual investigação os documentos tinham feito parte, mas a papelada parecia pertencer a um inquérito aberto pelo general Eldon Bargewell na investigação dos fatos ocorridos em Haditha. Os documentos levaram a um relatório concluindo que a cadeia de comando dos fuzileiros navais tinha agido com "deliberada negligência" ao deixar de investigar o episódio, e os comandantes dos marines se mostraram excessivamente dispostos a tolerar as mortes de civis.

Alguns marines, sentindo-se constantemente sob ataque, decidiram atirar primeiro e perguntar depois. Se os marines eram atacados a tiros de um edifício, era comum que o demolissem totalmente. Os motoristas que se aproximavam dos postos de controle sem parar eram considerados pilotos suicidas de carros-bomba. "Houve fuzileiros que atiraram em crianças dentro de carros e tivemos de lidar com cada um deles individualmente, pois é difícil para estes marines enfrentar tudo isso", depôs o subtenente Edward Sax. / NYT - TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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