ALEX SILVA / ESTADÃO
ALEX SILVA / ESTADÃO

Thatcher ajudou garota judia a fugir do nazismo

Aos 12 anos, 'Maggie' e sua irmã conseguiram tirar jovem da Áustria; destino final foi São Paulo

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2013 | 02h03

Uma aventura dramática envolvendo a ascensão do nazismo na Áustria, a perseguição aos judeus e o Brasil marcou profundamente o início da juventude de Margaret Thatcher, na década de 30. Em sua autobiografia, ao se questionar sobre o principal feito de sua vida, a Dama de Ferro não menciona a Guerra das Malvinas ou a mudança das bases da economia britânica, mas uma garota judia, Edith Muhlbauer, que Thatcher - aos 12 anos - ajudou a tirar do Terceiro Reich e levar à Grã-Bretanha. Edith viveu, fez uma família e morreu em São Paulo.

A relação entre as duas meninas começou porque a judia de Viena se correspondia por cartas com a irmã mais velha de Thatcher, Muriel, em um programa de "pen pal", em que jovens de países diferentes trocam mensagens pelo correio. Em 1938, quando Hitler anexou a Áustria, Edith, de 17 anos, começou a narrar nas mensagens a perseguição à comunidade judaica de sua cidade, estimada em mais de 170 mil pessoas. Depois, com o aumento da violência, a jovem fez um apelo às amigas - que não conhecia pessoalmente - para que lhe ajudassem a escapar do terror nazista. O pai de Edith, um banqueiro, também escreveu implorando para que tirassem sua filha da Áustria.

O pedido não era simples. O pagamento da viagem deveria ser feito na Grã-Bretanha e Alfred Roberts, o pai das duas meninas, era proprietário de um modesto armazém na pequena cidade de Grantham. Era impossível para ele bancar a operação de socorro. As irmãs, com 12 e 17 anos, iniciaram então uma campanha no Rotary Club e arrecadaram uma soma suficiente para levar Edith a Grantham e hospedá-la.

"Thatcher e sua irmã salvaram a vida da minha mãe e ela sempre foi imensamente agradecida a elas", disse ao Estado Betina Nokleby, filha caçula de Edith, de 51 anos.

Na casa dos Roberts, as três garotas dividiram um quarto e várias histórias. Em seu livro de memórias publicado nos anos 90, Thatcher narra como se deslumbrou com a hóspede "alta, bonita e claramente de uma família abastada". O que mais impressionou a menina de 12 anos, porém, foram os relatos do antissemitismo na Áustria. Edith contava como vira adultos judeus sendo obrigados por nazistas a esfregar o chão das ruas diante dos vieneses que passavam. Mais de 50 anos depois da conversa das meninas no quarto, Margaret disse que essa imagem lhe fez entender o poder do antissemitismo. Em 1940, Edith veio ao Brasil, viver com tios. Seus pais chegaram em São Paulo três anos depois.

O jornalista Charles Moore, que entrevistou longamente a ex-primeira-ministra com o compromisso de publicar uma biografia apenas após a morte da estadista, afirma que a jovem austríaca teve um impacto decisivo na formação política de Thatcher. "Edith foi provavelmente a primeira judia que ela conheceu pessoalmente", disse Moore em entrevista ao Telegraph, no ano passado.

Desde que deixou a Grã-Bretanha, a austríaca que adotou o Brasil como país nunca mais viu "Maggie". As duas conversaram ao telefone uma vez e a ex-premiê britânica convidou a amiga de infância para seu aniversário de 80 anos. A idade, porém, impediu Edith de fazer a viagem a Londres. A garota austríaca morreu em julho de 2005, deixando Betina, o filho Albert (mesmo nome do pai da Dama de Ferro), de 61 anos, e três netos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.