Thatcher guardou raiva da Argentina por causa da guerra

A ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher se recusou, em uma reunião secreta na Suíça, a restabelecer laços com o governo democrático da Argentina após a Guerra das Malvinas, revelou, nesta quarta-feira, um alto diplomata suíço. Thatcher se negou a restabelecer uma comunicação diplomática com Buenos Aires após uma reunião secreta em 1984 na Suíça, declarou Edouard Brunner, ex-chanceler suíço durante a década de 80. De acordo com o que diz Brunner em sua autobiografia, Thatcher se mostrou mais vingativa com a Argentina "do que qualquer outro líder britânico contra um inimigo alemão após a Segunda Guerra mundial". O livro de memórias de Brunner, que será lançado no 20º aniversário da Guerra das Malvinas, em 2 de abril, competirá com as memórias de Thatcher, que também escreveu sobre o conflito bélico durante seus anos como premier britânica. Durante a guerra de 1982, a Suíça representou os interesses da Grã-Bretanha em Buenos Aires . No início de 1984, após o colapso da ditadura militar e o retorno da democracia à Argentina, Brunner foi chamado pelo embaixador britânico em Berna para entrar em contato com o governo do recém-eleito presidente Raúl Alfonsín e restabelecer o diálogo - que, afinal, se frustou, e só em 1990 os dois países reataram os laços diplomáticos. Ao contrário da versão em que insistia a imprensa britânica na época - diz em seu livro o ex-chanceler suíço -, não foi a atitude argentina, mas, sim, o espírito vingativo da chamada "dama de ferro" que impediu o reatamento. "Ela detestava a ambigüidade e a linguagem diplomática e ordenou à equipe de negociadores que deixasse claro que jamais haveria discussão sobre a soberania das ilhas - o que jogou por terra qualquer alternativa." Em declarações citadas nesta quarta-feira sobre o tema das Malvinas, o ex-secretário de Defesa britânico, Sir John Nott, diz que a França foi a principal aliada dos britânicos na guerra de 1982, e que o então presidente americano Ronald Reagan pressionou Londres a negociar com Buenos Aires. Mas a França forneceu informações secretas que permitiram aos agentes do MI6, a agência de espionagem britânica, sabotar os mísseis Exocet que a Argentina usava com grande eficiência. Em um trecho de suas memórias, publicado, nesta quarta-feira, pelo jornal Daily Telegraph, Nott disse que, embora Thatcher e o então presidente da França, François Mitterrand, tivessem diferenças sobre o futuro da Europa, este último acudiu em auxílio da Grã-Bretanha assim que as tropas argentinas invadiram as Malvinas. Acrescenta que Paris forneceu a Londres aviões Super Étendard e Mirage iguais aos que havia vendido à Argentina, para que os pilotos dos Harrier britânicos pudessem exercitar-se para enfrentá-los. Nott conta ainda que "se realizou uma notável operação mundial para impedir que a Argentina comprasse mais mísseis Exocet". "Autorizei que nossos agentes se apresentassem como compradores no mercado internacional para concorrer com as ofertas dos argentinos. Outros agentes identificaram os mísseis Exocet em vários mercados e os tornaram inutilizáveis graças a informações proporcionadas pelos franceses. Disse também que, apesar da "relação especial" entre Grã-Bretanha e EUA, Reagan estava empenhado em permitir que o desenlace do conflito desse ao ditador argentino, general Leopoldo Galtieri, a oportunidade de sair-se bem. Ainda segundo Nott, a Casa Branca e o Departamento de Estado exerceram uma "pressão incrível" para que Londres negociasse com Buenos Aires. "(Os americanos) não compreendiam que, para nós, um acordo negociado equivaleria a uma derrota".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.