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Lourival Sant'Anna
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Thatcher venceu a resistência do poderoso sindicalismo britânico

Primeira-ministra impôs princípio de que só deveriam sobreviver setores rentáveis

Lourival Sant'Anna,

09 de abril de 2013 | 20h42

 Quando Margaret Thatcher assumiu o poder, em 1979, a Grã-Bretanha era um híbrido de capitalismo e socialismo, profundamente dominado pelos sindicatos, dos quais os políticos se sentiam reféns. Um pouco como acontece até hoje na França e na Espanha – que não tiveram a sua Thatcher –, cada decisão que desagradasse os sindicatos, ou simplesmente a discussão sobre os inúmeros “direitos adquiridos” dos trabalhadores, era acompanhada de protestos e greves que paralisavam o país e sua economia.

O primeiro teste para Thatcher foi o fechamento de dezenas de minas de carvão – um símbolo da Revolução Industrial desencadeada no século 18 na Inglaterra, e consubstanciado no fog (nevoeiro) londrino, causado mais pela poluição das caldeiras das fábricas movidas a carvão do que propriamente pelo clima da cidade. Durante quase um ano, entre 1984 e 1985, Thatcher enfrentou uma queda de braço com os mineiros – e não arredou. No fim, foram os sindicatos desse e de muitos outros setores que tiveram de ceder, fosse ao fechamento ou à privatização. Estava quebrada a espinha dorsal de um dos setores mais organizados e poderosos da Grã-Bretanha.

As reformas thatcheristas partiam de uma premissa que hoje parece óbvia no mundo capitalista: só deveriam sobreviver os setores produtivos que fossem lucrativos. A consequência disso foi a desindustrialização da Grã-Bretanha – um trauma que fraturou a identidade e o orgulho dos britânicos. Num certo sentido, o arquipélago britânico retomava sua vocação econômica histórica – a do setor de serviços –, manifesta na marinha mercante, nos seguros, bancos e assim por diante. Alguns nichos industriais – aqueles nos quais os britânicos eram e são competitivos, graças ao avanço tecnológico do país, também perduraram, como o farmacêutico, de telefonia, petróleo e gás, por exemplo.

A ideologia thatcherista penetrou até mesmo o setor público – ou o que restou dele. As empresas públicas, controladas por órgãos com representantes da sociedade civil, como a BBC, por exemplo, e as estatais adotaram métodos de aferição de resultados e de controle de qualidade adaptados da iniciativa privada. Um poderoso sistema de regulação, com agências reguladoras fortes e independentes tanto do governo quanto das empresas privatizadas, garantiu o controle dos preços e da qualidade dos serviços públicos prestados pelas concessionárias. E isso se tornou um modelo para todo o mundo.

A educação e a saúde – os dois mais importantes eixos do Estado de bem-estar social europeu – continuaram predominantemente públicas e de qualidade. As verbas foram reduzidas, mas houve também enorme racionalização da gestão. Houve e há muitas queixas e denúncias, mas esses dois serviços públicos na Inglaterra ainda continuam dentre os melhores do mundo.

O thatcherismo foi uma revolução tão poderosa que o Partido Trabalhista, principal rival dos conservadores, teve de se reinventar. O chamado New Labour adotou, de forma mais ou menos explícita, os dogmas liberais de Thatcher. Só depois de fazer isso foi que os trabalhistas conseguiram voltar ao poder, com Tony Blair, em 1997.

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