The Economist: A catástrofe se aproxima de Biden e dos democratas

The Economist: A catástrofe se aproxima de Biden e dos democratas

Presidente americano tem que se afastar da ala mais à esquerda do partido se quiser ter sucesso nas eleições de meio de mandato

The Economist, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00
Atualizado 07 de novembro de 2021 | 05h01

Dois dos melhores livros a respeito do cargo inventado por George Washington compartilham do mesmo título: The Impossible Presidency (A presidência impossível). Até mesmo os presidentes mais capazes estão fadados ao fracasso, escreve Jeremi Suri na obra mais recente: “Limitar o fracasso e alcançar algo de bom no caminho — isso é o melhor que podemos esperar”. 

Mesmo segundo esses sombrios padrões, Joe Biden está afundando. Tendo recebido mais votos do que qualquer outro candidato na história, ele viu seus índices de aprovação despencarem. Neste ponto de um primeiro mandato, somente Donald Trump foi mais impopular. Os democratas acabaram de perder as disputas pelos principais cargos estaduais na Virgínia, onde Biden venceu por uma margem de 10 pontos porcentuais no ano passado. Isso é um mau sinal para as eleições de meio de mandato do ano que vem: seu partido, provavelmente, perderá as maiorias no Legislativo

Democratas no Congresso estão destroçados por querelas facciosas. Este ano, eles aprovaram um grande pacote de estímulos, mas o restante da agenda de Biden — um pacote bipartidário de US$ 1 trilhão para infraestrutura, aprovado na Câmara na sexta, 5, e um projeto de gastos sociais de US$ 1,7 trilhão em dez anos — empacou. 

As legislações quase certamente incluirão mais dinheiro para infraestrutura, crédito fiscal para combater a pobreza infantil, financiamento para pré-escolas, redução no custo de remédios prescritos e um crédito fiscal para energia limpa que encorajará o investimento privado em novas instalações de geração. Esses gastos, provavelmente, serão financiados por danosas alterações tributárias, mas os eleitores poderão não se importar.

Na realidade, seus espíritos poderão revoar no ano que vem. O número de casos de covid-19 tem baixado desde setembro. Se o desemprego diminuir ainda mais, os bloqueios na cadeia de fornecimento aliviarem e a inflação baixar, a vida ficará mais fácil para aqueles que sentem que a realidade está difícil. Mas, para Biden, é aí que as boas notícias acabam. 

Perigo nas eleições de meio de mandato

Alguns dos problemas dele são intrínsecos. A política americana é sujeita a padrões mais parecidos com as leis da física do que as probabilidades das corridas de cavalos. Segundo um desses padrões, o partido do presidente costuma perder assentos no Congresso em eleições de meio de mandato. 

Os democratas têm um calço de apenas quatro assentos na Câmara dos Deputados, então, sua maioria está ameaçada. O que quer que Biden faça, a fase legislativa de sua presidência está, portanto, propensa a abrir caminho para uma fase regulatória. Mesmo assim, com uma maioria conservadora na Suprema Corte, ele verá restringido seu espaço para reformar o país com canetadas e telefonemas. 

Para além do próximo ano, as perspectivas democratas são ainda mais desoladoras. Sua falta de popularidade entre os brancos sem ensino superior lhes furta grandes fatias fora das cidades e dos subúrbios. Para vencer no colégio eleitoral, na Câmara dos Deputados e no Senado, eles precisam de um número maior de eleitores do que qualquer outro partido na história.

Vencer sob essas condições, enquanto simultaneamente reforma instituições nacionais e avança na solução de problemas americanos, da saúde pública ao clima, à mobilidade social, é tarefa para um político de talentos sobre-humanos. 

Biden não é esse cara. Ele lidou admiravelmente com desgraças pessoais e, segundo a maioria dos relatos, é gentil e decente. Contudo, há uma razão para ele ter levado mais de 30 anos para conseguir chegar à presidência. Os eleitores das primárias do Partido Democrata não o escolheram por inspiração, mas, em grande parte, como uma manobra defensiva para bloquear o patrono dos progressistas, Bernie Sanders.

A debacle de Joe Biden

Biden divulgou em campanha sua competência, seu centrismo, sua experiência em política externa e uma rejeição ao trumpismo vociferante e atrevido. Mas houve um debacle com a retirada do Afeganistão, ele foi levado para a esquerda e para as raivosas guerras culturais agressivamente, como jamais fora

O fato de nenhum eleitor parecer ter nenhuma pista a respeito do que consta de seus pacotes de gastos sociais e em infraestrutura é, em parte, culpa dele. A pobreza infantil caiu em um quarto graças a uma lei aprovada no Congresso sob sua batuta. Isso soaria como novidade para a maioria dos democratas. 

O problema, porém, não é apenas Biden. A ala à esquerda de seu partido, uma classe de ativistas com educação superior, assume consistentemente que o eleitorado tem atitudes similares às suas a respeito de raça e da função do governo. A Virgínia é o mais recente exemplo desse engano. Os EUA são um país jovem e diverso. A média etária da população é inferior a 40 anos, e apenas 60% do país se identifica como branco. 

O eleitorado é diferente. Guiando-se pela média entre as eleições de meio de mandato, de 2018 e 2014, 75% dos eleitores são brancos e sua média etária é de 53 anos. Os democratas têm ampla vantagem entre pessoas com ensino universitário. Mas apenas 36% dos americanos têm grau superior. Trata-se de uma base pequena demais, especialmente enquanto os republicanos constroem laços com eleitores não brancos. 

Quando Richard Nixon venceu, em 1972, os democratas da nova esquerda eram pintados como partidários “do LSD, da anistia e do aborto”. A novíssima esquerda pode ser facilmente qualificada, na mesma medida, como partidária da culpa branca e da cultura do cancelamento, como gente que diz “a pessoa que me deu à luz”, em vez de “mãe”, e quer mandar o FBI atrás de pais que tiveram o descaramento de criticar professores. 

Esses ativistas barulhentos e o diminuto número de radicais que eles elegem para os assentos democratas dificultam para o partido vencer em áreas mais moderadas, mesmo que não representem a maioria dos eleitores do partido. Defensores da imigração estão acampados diante da residência da vice-presidente reclamando que Biden não mudou as políticas de fronteira de Trump. Em contraste, eleitores democratas em Minneapolis, onde George Floyd foi assassinado, acabaram de votar contra a substituição do departamento de polícia por um departamento de segurança pública. 

A saída para o Partido Democrata

Combater a mensagem republicana de que Biden realiza os desejos da esquerda radical exigirá que ele seja muito mais enérgico em relação à margem de seu partido. Isso poderá significar que ele terá de fazer coisas que odeia. Ele poderá ter de advogar pela contratação de mais policiais em cidades onde os índices de homicídio aumentaram (“refinanciar a polícia”, talvez), ou comprar brigas com a diretoria de ensino de San Francisco, que considera Abraham Lincoln um símbolo da supremacia branca. 

Se os democratas se creem superiores a tentativas repreensíveis de conquistar poder, então eles deveriam ver o que está acontecendo no Partido Republicano. A eleição de Glenn Youngkin como governador da Virgínia sugere que os republicanos poderão vencer em Estados-chave, até mesmo com Trump liderando seu partido, atuando como otimistas defensores de uma cultura inspirada no ex-presidente Ronald Reagan que sabem como atiçar sua base partidária. 

Em uma disputa presidencial entre dois candidatos, ambos quase sempre têm chance real de vencer. Biden e seu partido têm de pensar bem a respeito do que estão preparados para fazer para limitar o risco de mais quatro anos de Trump. Porque é nisso que poderá resultar uma presidência fracassada de Biden. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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