Bassam Khabieh|Reuters
Bassam Khabieh|Reuters

The Economist: A encruzilhada dos Estados Unidos no Oriente Médio

Donald Trump e seus assessores não conseguem entrar em acordo a respeito de uma estratégia na Síria

O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 05h00

O ataque químico de Bashar Assad na cidade de Duma, no dia 7, foi muito condenado. Mas punir o ditador da Síria é mais simples do que elaborar uma política coerente para o país. Se Donald Trump ordenar uma campanha limitada de bombardeios contra os palácios e recursos militares de Assad, isso não vai alterar o curso da guerra. Graças a seus protetores iranianos e russos, nada pode impedir Assad de, em certo sentido, vencer.

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O ataque retaliatório pode pelo menos mudar o cálculo de Assad sobre o uso de armamentos químicos como meio de aterrorizar a resistência. Se ele concluísse, tardiamente, que o preço a ser pago pelo uso de armas proibidas se tornou muito alto de novo, Trump teria justificativa para levar algum crédito. No entanto, sob outros aspectos, o presidente americano está semeando confusão quanto aos objetivos dos EUA na Síria e ameaçando comprometer seus interesses e os de seus aliados regionais.

Em um discurso supostamente sobre investimento em infraestrutura, em 29 de março, o presidente declarou: “Estamos acabando com o Estado Islâmico. Nós sairemos da Síria muito em breve. Deixemos outras pessoas cuidarem disso agora.” Em 3 de abril, Trump disse ter tido “muito sucesso contra o EI, mas é hora de voltar para casa”.

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Quase ao mesmo tempo, o general Joseph Votel e Brett McGurk, comandante militar dos EUA na região e enviado do Departamento de Estado à coalizão contra o EI, estavam transmitindo uma mensagem muito diferente. Embora os jihadistas tivessem sido expulsos da maior parte do território que antes controlavam na Síria, ainda havia bolsões a serem liberados. O general Votel advertiu que “a parte difícil está adiante”. As tarefas à frente, disse ele, são consolidação, estabilização e reconstrução – e as duas primeiras exigem uma presença militar contínua.

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Essa presença atualmente compreende cerca de 2 mil soldados americanos no leste da Síria, em grande parte engenheiros e soldados de operações especiais, que estão trabalhando e combatendo ao lado das Forças Democráticas da Síria (FDS), um grupo de milícias lideradas por curdos. 

No ano passado, a FDS, com a ajuda do poder aéreo americano, libertou a maior parte das províncias orientais do país das mãos dos jihadistas do EI. Os americanos e a FDS operam em uma área ao leste do Eufrates. O rio funciona como uma linha de demarcação informal entre eles e as forças do governo russo, iraniano e sírio, que controlam o oeste do território.

Em janeiro, Rex Tillerson, então secretário de Estado, fez um discurso de longo alcance sobre os objetivos do governo dos EUA na Síria. Prometendo não repetir os erros de Barack Obama no Iraque e na Líbia, Tillerson disse que o compromisso militar dos EUA teria como base condições, mas sem um prazo determinado. 

As tropas americanas permaneceriam na Síria muito tempo depois da derrota do EI, tanto para garantir que ele não retornasse assim como para impedir que as forças iranianas e do regime entrassem nas áreas recentemente liberadas. Ele delineou cinco objetivos políticos: impedir que o EI e a Al-Qaeda ressurgissem na Síria; apoiar o processo de paz liderado pela ONU; conter a influência do Irã; ajudar a efetivar o repatriamento seguro dos refugiados sírios; e limpar o país de armas de destruição em massa.

Como uma declaração de intenções, estava muito distante do compromisso de campanha de Trump de destruir o EI rapidamente e depois sair. Tillerson recebeu elogios de tradicionais especialistas em política externa, mas também havia ceticismo. Em depoimento no Congresso, Robert Ford, último embaixador dos Estados Unidos na Síria e implacável crítico do fracasso de Obama em armar rebeldes moderados antes que estes fossem desalojado por grupos mais extremistas, descreveu as metas de Tillerson como admiráveis, mas basicamente inatingíveis, dados os recursos disponíveis e a realidade local.

Grupos afiliados à Al-Qaeda estão no noroeste do país, distantes das forças americanas, disse Ford. O processo de paz da ONU foi fadado à irrelevância, acrescentou. Além disso, a força dos EUA terá pouco impacto sobre a influência do Irã. A maioria dos refugiados deseja retornar ao território ocupado pelo regime e Assad mostrou pouco interesse em abrir mão de suas armas químicas, com Rússia e China bloqueando os esforços da ONU para obrigá-lo a fazer isso.

No entanto, isso não significa que a missão americana deva ser abortada, como Trump provavelmente gostaria. Para começar, haveria um sério risco de o EI ressurgir antes que as forças locais pudessem lidar com isso, sem ajuda. Mesmo que o EI não voltasse, com os americanos tendo se retirado, as forças do regime e as milícias apoiadas pelo Irã estariam em breve atravessando o Eufrates em uma tentativa de retomar território.

Um Irã encorajado (e a Rússia) veriam, sem dúvida, uma retirada americana da Síria como o provável prelúdio de uma saída do Iraque – e talvez do Oriente Médio em geral. A Turquia aumentaria seus ataques contra os aliados curdos sírios dos EUA no norte do país. A relativa segurança que as forças americanas levaram para alguns sírios se evaporaria. Finalmente, seria perdida a pequena vantagem conseguida recentemente pelos EUA no processo para determinar o futuro da Síria.

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Os aliados dos Estados Unidos na região, particularmente Israel e Arábia Saudita, querem não só ficar, como reforçar sua presença. O sucessor de Tillerson como secretário de Estado, Mike Pompeo, e o novo assessor de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, querem um confronto com o Irã, sem ceder território. 

James Mattis, o secretário de Defesa, está empenhado em terminar o trabalho que suas tropas iniciaram na Síria. Eles ainda poderiam convencer Trump. No entanto, a tendência do presidente é de prestar mais atenção no que diz seu instinto do que naquilo que sua base política quer. Se isso for uma retirada rápida, como ele prometeu na campanha, então é isso que acontecerá. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 





 

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