Thomas Kienzle/AFP
Thomas Kienzle/AFP

The Economist: A gigante alemã se vai e deixa um legado confuso 

O sucessor de Angela Merkel, a tão admirada chanceler da Alemanha, enfrentará vários problemas não resolvidos

The Economist, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 05h00

Somente Otto von Bismarck e Helmut Kohl ocuparam por mais tempo o cargo de chanceler da Alemanha do que Angela Merkel. Bismarck forjou um império e, no caminho, inventou os primeiros sistemas públicos de pensão e saúde. Kohl coordenou a reunificação das Alemanhas Oriental e Ocidental e concordou com a substituição do amado marco alemão pelo euro.

As realizações de Merkel são mais modestas. Em seus 16 anos à frente da chancelaria, ela resistiu a uma série de crises, da economia à pandemia. Suas habilidade como criadora de consenso fizeram bem ao seu país e à Europa. Mas seu governo negligenciou muita coisa, nacional e internacionalmente. Apesar disso, a Alemanha se saiu bem, até agora. O país está próspero e estável. Ainda assim, problemas se assomam. E, enquanto Merkel se prepara para deixar o cargo assim que um novo governo for formado, após a eleição de hoje, a admiração por sua liderança estável deverá se mesclar à frustração diante da complacência que ela produziu.

A lista de temas negligenciados é longa. A Alemanha soa como um carro de luxo: abrindo o capô, porém, os sinais de negligência são claros. O setor público fracassou em investir adequadamente ou sabiamente, ficando atrás de outros países em relação à construção de infraestrutura, especialmente no campo digital. Isso prejudica não somente novas e avançadas empresas de tecnologia, mas também todas as outras empresas.

Isso também torna o governo menos eficiente, um problema exacerbado pelo fracasso em contratar mão de obra suficiente. Mesquinharias são inculcadas no Estado. Em 2009, sob a supervisão de Merkel, a Alemanha se atrapalhou com uma emenda constitucional que torna ilegal ao país operar com déficits, ainda que mínimos. Com as taxas de juros tão baixas, governos sensatos deveriam estar pegando emprestado para investir – e não desmaiando como se nunca tivessem ficado no vermelho antes.

O mais grave problema doméstico da Alemanha é o país fracassar em reformar seu sistema de pensão. Os alemães estão envelhecendo rapidamente, e a atual geração de baby-boomers colocará um peso ainda maior sobre o orçamento no fim desta década, quando ela começar a se aposentar. 

A respeito das mudanças climáticas, a Alemanha também tem sido relapsa – e ainda emite mais carbono por habitante do que qualquer outro grande país da União Europeia. O fechamento da indústria nuclear alemã, promovido por Merkel após o desastre de Fukushima, no Japão, em 2011, não ajudou.

Na Europa, onde a influência da Alemanha é mais importante, a relutância de Merkel em exercê-la foi especialmente decepcionante. A UE não lidou suficientemente com a fraqueza de seus endividados membros do sul. Somente durante a pandemia foi criado um instrumento financeiro que permite à UE emitir créditos de garantia conjunta e distribuir algum dinheiro em financiamentos, em vez de ainda mais empréstimos. Mas esse mecanismo foi idealizado como algo pontual. Pior, as regras de “estabilidade” que forçarão países de volta à austeridade para diminuir o tamanho de suas dívidas estão prontas para ser reavivadas, a não ser que sejam alteradas. A Alemanha, sempre a voz mais poderosa na mesa de negociação da UE, deveria ter argumentado com mais força a favor de uma abordagem mais sensata.

Na política externa da UE, a Alemanha poderia e deveria estar fazendo mais para forçar um ajuste mais rápido para um novo mundo menos confortável. A China é um rival econômico e estratégico crescentemente desafiador, a Rússia, uma imprevisível ameaça, e os EUA, aliados distraídos e incertos. Ainda assim, a Alemanha tem hesitado. Apesar de aumentos recentes, o país gasta pouco demais em defesa; aproxima-se de Pequim com esperança de melhores termos comerciais; está dando a Putin, o presidente da Rússia, completo poder sobre o fornecimento energético da Europa, ao apoiar o novo gasoduto Nord Stream 2 que, por acaso, chega à Alemanha pela região que abriga a base eleitoral de Merkel. Coube a outros, principalmente ao presidente francês, Emmanuel Macron, argumentar para que a Europa faça mais.

Qual candidato alemão, porém, poderia se sair melhor do que Merkel? As pesquisas sugerem que a Alemanha terá um novo Parlamento confuso, com nenhum partido – nem dois – capaz formar governo sozinho. Em vez disso, algum tipo de coalizão de três partidos, incoerente ideologicamente, está em gestação – uma coalizão que, ao combinar os gastadores verdes e os liberais pró-comércio, deverá ter dificuldades para concordar em relação a qualquer política ambiciosa.

Este é outro sintoma da complacência merkeliana. Alemães confortáveis e cautelosos parecem não estar interessados em um debate sério a respeito do futuro. Gerenciamento de crise se tornou substituto da iniciativa. Os candidatos não têm nenhum incentivo para apontar problemas à espreita. O resultado foi uma das menos substantivas campanhas eleitorais em décadas: o que importa é a disputa, não os programas de governo.

Entre os resultados possíveis, dois parecem mais prováveis. Um seria uma coalizão comandada pelo partido de Merkel, a União Democrata-Cristã (CDU), liderada por Armin Laschet, e sua legenda-irmã da Bavária, a CSU. O outro, uma coalizão liderada por Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), atual ministro das Finanças.

Em qualquer caso, a coalizão seria integrada pelos verdes e pelos democratas liberais pró-comércio. Ambos os resultados terão sérias deficiências, mas, entre as possibilidades, a Economist tem leve preferência pela segunda: uma coalizão “colorida”, liderada por Scholz.

Isso porque, francamente, a união CDU-CSU fracassou. Dezesseis anos no poder bastaram. O partido ficou sem ideias nem vontade, como demonstra claramente sua decisão de escolher o desastrado e tedioso Laschet para a disputa pelo cargo de chanceler. Um afável peso-pena, ele conduziu uma campanha deplorável, que, segundo as pesquisas, deverá levar seu partido ao pior resultado desde a 2.ª Guerra. As sondagens afirmam que Scholz tem a preferência dos eleitores.

Mas elas estão corretas? Há razões para se esperar que sim, mas também há muito a temer. Scholz foi um eficiente ministro das Finanças. Os alemães confiam nele. Ele está mais bem posicionado do que um chanceler da CDU estaria para trabalhar com os verdes no combate às mudanças climáticas. O problema é que, apesar de ele pertencer à ala favorável ao comércio de seu partido, o SPD está repleto de esquerdistas. Eles podem tentar arrastá-lo a ponto de testar a lealdade dos liberal-democratas e do empresariado.

O mundo deve esperar que as negociações da coalizão durem meses, abalando a política europeia enquanto se arrastem. E, no fim disso tudo, a Alemanha poderá muito bem acabar com um governo que fracasse em realizar grandes coisas. Esta é a confusão que Merkel deixou para trás. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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