EFE/EPA/IAN LANGSDON
EFE/EPA/IAN LANGSDON

The Economist: A mais importante eleição de 2017

Mesmo derrotada, a nacionalista Marine Le Pen, da Frente Nacional, mudou a política francesa: a França agora está mais dividida que nunca

O Estado de S.Paulo

08 Maio 2017 | 05h00

Não foi um passeio em família dos mais ortodoxos: na segunda-feira, 1.º de maio, a parentada, reunindo 20 indivíduos das mais variadas idades, partiu da região da Normandia rumo a um centro de convenções situado na cidadezinha de Villepinte, 20 km ao norte de Paris, só para ver a nacionalista Marine Le Pen em seu último grande comício antes do 2.º turno da eleição presidencial francesa.

O mais novo da turma tinha 7 anos; havia também várias adolescentes. Mas a família parecia empolgada. “Faz 30 anos que os políticos estão arruinando este país”, bradava Bernard, o tio do clã, que trabalha com seguros funerários. “Dizem que somos racistas, mas isso é besteira. Só a Marine tem ideias concretas para tirar a gente deste caos.”

A poucos dias do pleito, as pesquisas indicavam que Le Pen perderia por uma margem de 20% para Emmanuel Macron. Mas a líder da Frente Nacional (FN) não entregou os pontos. Na quarta-feira, num debate transmitido pela TV, partiu para o ataque, caracterizando a eleição como um referendo sobre a globalização e o sistema financeiro. Acusou o adversário, que foi ministro da Economia do governo de François Hollande e, entre 2008 e 2012, trabalhou no banco de investimentos Rothschild, de ser o candidato do “sistema”, da “uberização da sociedade” e da “globalização selvagem”.

Em Villepinte, fazendo eco a um bordão de campanha utilizado por Hollande em 2012, disparou: “O inimigo do povo francês continua a ser o mundo das finanças, mas desta vez ele tem nome, tem rosto, tem partido, é candidato e todo mundo quer que ele seja eleito: chama-se Emmanuel Macron”.

A mensagem fez sucesso junto a parcela significativa do eleitorado num país rachado ao meio. As grandes cidades e os eleitores com diploma universitário fecharam com Macron e sua política pró-Europa e pró-mercado; mas as cidadezinhas menores e a zona rural abraçaram o euroceticismo protecionista e anti-imigração de Le Pen. Alguns chegavam a rejeitar sua xenofobia, mas a repulsa ao sistema financeiro falava mais alto. “Nem banqueira, nem racista”, dizia uma faixa exibida numa manifestação realizada em Paris. Jean-Luc Mélenchon, candidato apoiado pelos comunistas, que ficou em quarto lugar no 1.º turno, rejeitou recomendar o voto em Macron para impedir que Le Pen fosse eleita. Nada menos que 65% de seus eleitores diziam que se absteriam ou anulariam o voto.

Le Pen tentou ampliar sua base de apoio. Costurou a primeira aliança de âmbito nacional nos 45 anos de história da FN, conquistando o apoio de Nicolas Dupont-Aignan, eurocético de direita que obteve quase 5% dos votos no 1.º turno. Também fez acenos à direita tradicional (com seus eleitores mais idosos) e à extrema esquerda (com os mais jovens). Plagiou uma eletrizante passagem sobre identidade regional de um discurso de François Fillon, candidato derrotado do partido Republicanos, de centro-direita. Segundo seus assessores, foi uma tentativa explícita de atrair os eleitores de Fillon. Recorrendo às redes sociais, também apelou aos “insubmissos” eleitores de Mélenchon, aos quais lembrou que, em alguns pontos - como a desconfiança em relação à Otan e a defesa da idade mínima de 60 anos para a aposentadoria -, ela pensava como o candidato de esquerda.

Talvez mais extraordinária tenha sido a mudança de posição em relação ao euro. Fazia tempo que a proposta de abandonar a moeda única dividia a FN: para os partidários de Florian Phillippot, lugar-tenente de Le Pen, essa era uma bandeira fundamental; para os correligionários de sua sobrinha e deputada da Assembleia Nacional, Marion Maréchal-Le Pen, mais atrapalhava que ajudava. Mas entre os dois turnos da eleição a ideia afugentou muitos eleitores. Os mais idosos, em particular, preocupavam-se com a possibilidade de que uma desvalorização cambial produzisse um estrago em suas aposentadorias e poupanças. Assim, Le Pen optou por tergiversar, anunciando um plano confuso: em vez de abandonar o euro, o país operaria com duas moedas. No comício de Villepinte, a policial de folga Anne-Claire manifestou sua concordância: “O euro não faz diferença. O importante é a defesa dos valores franceses”.

De qualquer forma, as chances de Le Pen eram muito reduzidas. Suas intenções de voto só superavam os 50% na região de Provence-Alves-Côte d’Azur, reduto da FN, no sul do país. Na Bretanha e na Grande Paris, as pesquisas lhe davam apenas 31%.

O resultado da eleição representa uma derrota simbólica para as forças do nacionalismo e do populismo, que vinham ganhando terreno em diversas partes da Europa. Também pode colocar em risco a liderança de Le Pen no interior da FN.

Apesar disso, seria um equívoco subestimar seu desempenho. Já no 1.º turno, quando conquistou 7,7 milhões (21%) de votos, Le Pen havia estabelecido um recorde histórico para a FN. Em 2002, quando seu pai, Jean-Marie Le Pen, também chegou ao 2.º turno das eleições presidenciais, seus adversários realizaram manifestações em todo o país, e Jacques Chirac foi eleito com 82% dos votos. Desta vez, as ruas permaneceram basicamente em silêncio. Apesar de eleito, Macron herdará um país profundamente dividido. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.