Chris J. Ratcliffe/EFE
Chris J. Ratcliffe/EFE

The Economist: a morte do centro político no Reino Unido

Trabalhistas e conservadores se distanciam de posições liberais ao disputarem o poder em meio ao cenário extremamente incerto do Brexit

O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2017 | 05h00

O Reino Unido realizou sua última eleição geral há apenas dois anos. Naquela altura, o país era uma ponte entre a União Europeia (UE) e os EUA de Barack Obama. A economia voltava a crescer depois de anos de estagnação dos padrões de vida. A independência da Escócia acabara de ser rejeitada. A proposta mais controvertida do Partido Trabalhista era a fixação de um teto para os preços de energia, ideia denunciada como “marxista” pelos conservadores, que acabaram saindo vitoriosos do pleito.

Hoje, o Reino Unido está em outra era. O referendo do Brexit obrigou o país a abrir mão de seu maior parceiro comercial e tentar se aproximar de outros, como os EUA, que agora não se mostram tão receptivos às trocas internacionais. A economia aguentou razoavelmente bem o tranco, ao contrário do que muitos previam, mas já começa a crescer menos e há inquietação entre os investidores. Escoceses voltam a falar em independência e até os norte-irlandeses avaliam essa opção. A renda dos assalariados encontra-se estagnada em termos reais. A capacidade de atendimento dos serviços públicos está no limite.

A essa reviravolta, os partidos políticos reagiram cada qual à sua maneira, embora todos tenham substituído seus líderes. À frente da incorrigível esquerda delirante, Jeremy Corbyn assumiu o comando do Partido Trabalhista e propôs uma elevação de impostos que resultaria na carga tributária mais pesada desde a 2.ª Guerra. A primeira-ministra conservadora, Theresa May, não deixa por menos e promete um rompimento definitivo com a UE – recusando a livre circulação de pessoas e, por consequência, abrindo mão do acesso ao mercado comum. Os liberal-democratas defendem um desligamento menos categórico, ou mesmo a reversão do Brexit.

Inviável. Em termos de estilo e de posicionamento no contínuo esquerda-direita, Corbyn e May não poderiam ser mais diferentes. Apesar disso, compartilham do desejo de erguer a ponte levadiça que liga o Reino Unido ao restante do mundo. O trabalhista e a conservadora deram as costas para um conjunto de ideias que garantiu a prosperidade do Reino Unido nas últimas décadas: livre-mercado, fronteiras abertas e internacionalismo. Nesta eleição, vença a esquerda ou a direita, o derrotado será o liberalismo.

Corbyn se apresenta como um radical, mas é o mais conservador – e o mais perigoso – entre os candidatos. Quer reestatizar o sistema de transporte ferroviário, os serviços de correios e o abastecimento de água. Também pretende ressuscitar as negociações coletivas de salários e elevar o salário mínimo a um patamar em que 60% da remuneração dos trabalhadores jovens acabará sendo determinada pelo governo. Suas propostas penalizam principalmente as empresas e os indivíduos de renda mais alta, que reagirão com estratégias que a estimativa de custos dos trabalhistas desconsidera. O ensino superior será gratuito, como era até os anos 1990 – algo que representará um subsídio enorme para a classe média e um prejuízo para os mais pobres, cujo acesso à universidade aumentou depois que a cobrança de mensalidades ajudou a ampliar o número de vagas oferecidas.

Em relação à saída do bloco europeu, os trabalhistas parecem mais flexíveis, mas no fundo não almejam algo muito diferente do que querem os conservadores. O partido é contra a livre circulação de pessoas, o que impediria o país de continuar no mercado comum. Corbyn é mais aberto que May em relação à imigração, viabilizando um acordo ligeiramente mais favorável no tocante às relações comerciais com a UE. Mas sua inveterada aversão à globalização não faz dele o sujeito mais indicado para encabeçar esse tipo de negociação.

Por fim, se não é liberal em termos econômicos, o trabalhista tampouco dá muito valor às liberdades individuais. Embora se diga um defensor dos direitos humanos, Corbyn não se constrange de manifestar apoio a déspotas de esquerda, como Hugo Chávez e Fidel Castro – um “paladino da justiça social” –, que reprimem opositores e cerceiam a imprensa.

Dúvidas. Os conservadores fariam um governo bem melhor que os trabalhistas. Mas também suspenderiam a ponte levadiça. May quer abandonar o mercado comum, que até pouco tempo seu partido dizia ser uma das maiores realizações de Margaret Thatcher. Como se não bastasse, também insiste em reduzir em quase dois terços o fluxo líquido de migração. O Brexit deve facilitar isso, uma vez que o Reino Unido terá empregos em menor quantidade e de pior qualidade para oferecer. Ainda assim, a meta só será atingida se May impedir que a economia do país tenha acesso à mão de obra e aos talentos de que precisa para prosperar – coisa que devia estar cansada de saber, já que passou seis anos no cargo de secretária do Interior sem conseguir cumprir esse objetivo.

Os instintos antiliberais da primeira-ministra vão além de sua desconfiança em relação à ideia de “cidadãos de lugar nenhum” vagando livremente pelo mundo. Como Corbyn, May propõe a criação de novos direitos trabalhistas, sem levar em consideração que isso desestimularia as empresas a contratar mais, resultando em prejuízo para os próprios trabalhadores. A conservadora também quer dificultar a aquisição de companhias britânicas por grupos estrangeiros. Sua confusa “estratégia industrial” parece incluir o favorecimento de determinados setores e empresas. May chegou mesmo a incorporar em seu programa a ideia “marxista” de fixar tetos para os preços de energia originalmente proposta pelos trabalhistas.

E, mesmo estando politicamente anos-luz à frente de Corbyn, também há dúvidas quanto a sua capacidade de liderança. May queria que a campanha do Partido Conservador a apresentasse como uma primeira-ministra “forte e estável”. O resultado foi o oposto. Em janeiro, sua indecisão levou The Economist a apelidá-la de “Theresa Maybe” (“Theresa Talvez”). Agora, o ponto central de seu programa de governo, a proposta de fazer com que os indivíduos idosos contribuam mais com a seguridade social, foi abandonada quatro dias depois de ter sido divulgada. E a maior parte das outras propostas pecam pela vagueza: deixa-se a porta aberta para aumentos de impostos, sem que sejam minimamente esboçadas as diretrizes de uma política tributária. O pequeno círculo de assessores que ajuda May a governar tem visão provinciana e conhecimento limitado sobre o funcionamento da economia. Não é um bom augúrio para as negociações do Brexit. Em vez de cimentar a autoridade da primeira ministra, a campanha conservadora está revelando suas limitações.

Opção. Em suma, nenhum dos dois principais partidos britânicos abraça os valores liberais que The Economist historicamente defende. Acreditamos que, ao deixar a UE, o Reino Unido precisa permanecer aberto às empresas, aos investimentos e às pessoas. O Brexit causará menos dano se for visto como uma opção por uma abertura maior em relação ao mundo como um todo, e não apenas como uma rejeição à Europa. Desejamos um governo que mantenha o máximo de proximidade com a UE, sem com isso desrespeitar o resultado do referendo, e use o Brexit para reafirmar o livre mercado e a abertura da sociedade britânica. Nem trabalhistas, nem conservadores compartilham desses ideais.

A bem da verdade, nenhum dos partidos britânicos faz isso de forma inequívoca. Mas o que mais se aproxima dessas posições é o Partido Liberal-Democrata. A negociação com a UE é a principal tarefa do próximo governo e os liberal-democratas defendem a permanência no mercado comum e a livre circulação de pessoas. São mais sinceros que os conservadores ao reconhecer que será preciso aumentar os impostos para financiar os serviços públicos. E são mais sensatos que os trabalhistas ao propor que esse custo seja socialmente distribuído, em vez onerar apenas os indivíduos de renda mais elevada. 

Ao contrário dos trabalhistas, os liberal-democratas defendem a reversão dos cortes mais regressivos que os conservadores promoveram no sistema de seguridade social. Também estão certos em outros pontos: propõem a descentralização política do país, a reforma do sistema eleitoral e da Câmara dos Lordes, e a regulamentação dos mercados de drogas e sexo.

Como os outros partidos, os liberal-democratas não resistem à tentação de interferir no mercado, propondo, por exemplo, que os inquilinos tenham preferência de compra nos imóveis em que vivem. Seu ambientalismo por vezes não é muito inteligente, como acontece com sua oposição à construção de novas estradas e à produção de petróleo por fraturamento hidráulico. Os verdadeiros liberais do partido sofrem nas mãos dos que pendem para a esquerda, como Tim Farron, que conduz o partido para um péssimo resultado eleitoral.

De qualquer forma, diante de um Partido Trabalhista que só olha para trás e de um Partido Conservador que só olha para dentro – e está prestes a agravar ainda mais o erro histórico cometido em relação ao Brexit –, os liberal-democratas têm o voto de The Economist.

O apoio a uma posição de centro, com destaque para a abertura do país e a defesa do livre-mercado, não se limita a essa eleição. Sabemos que este ano os liberal-democratas não vão a lugar nenhum. Mas o tufão deflagrado pelo Brexit é imprevisível. O Partido Trabalhista vive à beira da ruptura desde que Corbyn assumiu a liderança. Se May tiver um desempenho ruim na eleição ou meter os pés pelas mãos nas negociações do Brexit, pode haver uma divisão também entre os conservadores. Muitos deputados trabalhistas e conservadores de posições mais moderadas podem vir a se unir num novo partido liberal de centro – como fizeram frações da esquerda e da direita na França recentemente. Portanto, o voto nos liberal-democratas deve ser visto como uma aposta no futuro. Nossa esperança é que eles se tornem um dos elementos de um partido de centro radical, algo essencial para um Reino Unido próspero e pujante. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER 

© 2017 THE ECONOMIST

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