The Economist: A nova disputa pela África

The Economist: A nova disputa pela África

A primeira onda de interesse estrangeiro na África ocorreu quando os europeus do século 19 dividiram o continente. A segunda foi durante a Guerra Fria. Ua terceira onda, agora em curso, é mais benigna.

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2019 | 06h00

A primeira onda de interesse estrangeiro na África, chamada de “corrida”, ocorreu quando os europeus do século 19 dividiram o continente e apropriaram-se das terras africanas. A segunda foi durante a Guerra Fria, quando o Oriente e o Ocidente competiram pela lealdade dos novos Estados independentes: a União Soviética apoiava os tiranos marxistas e os EUA apoiavam déspotas que diziam acreditar no capitalismo. 

Uma terceira onda, agora em curso, é mais benigna. Observadores notaram que o continente está se tornando cada vez mais importante, não só por sua crescente participação na população global (até 2025, a ONU prevê que existirão mais africanos do que chineses). Governos e empresas de todo o mundo correm para fortalecer os laços diplomáticos, estratégicos e comerciais. Isso cria oportunidades. Se a África lidar sabiamente com a nova disputa, os principais vencedores serão os próprios africanos.

A extensão do envolvimento estrangeiro não tem precedentes. A começar pela diplomacia. De 2010 a 2016, mais de 320 embaixadas foram abertas na África, provavelmente o maior boom jamais registrado em qualquer lugar. Só a Turquia abriu 26. No ano passado, a Índia anunciou que abriria 18. Os laços militares também estão se aprofundando. Os EUA e a França emprestam força e tecnologia à luta contra o jihadismo na região do Sahel. A China é o maior vendedor de armas para a África Subsaariana e possui laços de tecnologia de defesa com 45 países. A Rússia assinou 19 acordos militares com países africanos desde 2014. Estados árabes ricos em petróleo estão construindo bases no Chifre da África e contratando mercenários africanos.

Laços comerciais estão sendo reformulados. Recentemente, em 2006, os três maiores parceiros comerciais da África foram EUA, China e França, nesta ordem. Em 2018, a China vinha em primeiro, a Índia em segundo e os EUA em terceiro (a França, em sétimo). No mesmo período, o comércio da África mais do que triplicou com a Turquia e a Indonésia, e mais do que quadruplicou com a Rússia. A relação comercial com a União Europeia cresceu 41%. As maiores fontes de investimento estrangeiro direto ainda são firmas de EUA, Grã-Bretanha e França, mas as chinesas, incluindo estatais, estão conquistando espaço, e investidores de Índia e Cingapura estão ansiosos para entrar na disputa.

O estereótipo dos estrangeiros na África é dos exploradores neocoloniais, interessados apenas nos recursos naturais, não em seu povo, e prontos para subornar figurões em negócios obscuros que não beneficiam os africanos comuns. Isso é algumas vezes verdadeiro. Um número grande de empreendimentos petrolíferos e minerais são escusos. Líderes africanos corruptos, que ainda existem em abundância, podem sempre encontrar facilitadores estrangeiros para lavar o resultado do saque. E os contratos com empresas de países que pouco ligam para a transparência, como China e Rússia, são obscuros. Três jornalistas russos foram assassinados no ano passado enquanto investigavam uma instalação mercenária ligada ao Kremlin que supostamente protege o presidente da República Centro-Africana. Compreensivelmente, muitos viram um sopro do antiquado imperialismo.

No entanto, o envolvimento com o mundo exterior tem sido bastante positivo para os africanos. Estrangeiros constroem portos, vendem seguros e levam tecnologia de telefonia móvel. As fábricas chinesas funcionam na Etiópia e em Ruanda. A Turkish Airlines voa para mais de 50 cidades africanas. Maior abertura ao comércio e investimento é uma razão pela qual a renda per capita ao sul do Saara é dois quintos mais alta do que era em 2000. Políticas macroeconômicas mais confiáveis e menos guerras também ajudaram. Os africanos podem se beneficiar quando os estrangeiros compram de tudo, de têxteis a férias e serviços digitais.

Mesmo assim, os africanos podem fazer mais para obter mais benefícios. Primeiro, eleitores e ativistas podem insistir na transparência. É animador que a África do Sul esteja investigando os acordos suspeitos fechados no governo do presidente anterior, Jacob Zuma, mas é alarmante que um comportamento ainda pior na República Democrática do Congo siga sem ter sido investigado e os termos dos empréstimos chineses a alguns governos perigosamente endividados sejam secretos. Para ter certeza de que um acordo público é bom para pessoas comuns, assim como para os grandes homens, os eleitores precisam saber o que há nele. Jornalistas, como os quenianos, que expuseram escândalos sobre um projeto ferroviário chinês, têm grande papel a exercer.

Segundo, os líderes da África precisam pensar mais estrategicamente. A África pode ser tão populosa quanto a China, mas abrange 54 países, não um. Os governos africanos poderiam fazer melhores negócios se mostrassem unidade. Ninguém espera que um continente tão heterogêneo seja tão integrado como a UE. Mas, certamente, pode evitar que a China negocie com cada país individualmente, a portas fechadas. O desequilíbrio de poder entre China e Uganda, por exemplo, é enorme. Poderia ser reduzido com uma área de livre-comércio ou se os blocos regionais africanos se unissem. Afinal, os benefícios dos projetos de infraestrutura cruzam as fronteiras.

Em terceiro lugar, os líderes africanos não precisam escolher lados, como fizeram na Guerra Fria. Eles podem fazer negócios com as democracias ocidentais e também com China e Rússia – e com qualquer outro que tenha algo a oferecer. Como eles têm mais opções agora do que nunca, os africanos devem conduzir seu poder para barganhas mais difíceis. E os estranhos não devem ver isso como um jogo de soma zero (como aparentemente faz o governo de Donald Trump). Se a China construir uma ponte em Gana, um carro americano pode passar por ela. Se uma empresa britânica investe em uma rede de dados móveis no Quênia, um empreendedor queniano pode usá-la para criar uma startup transnacional.

Por último, os africanos devem aceitar o que seus aliados lhes dizem. A China argumenta que a democracia é uma ideia ocidental e desenvolvimento requer mão firme. A mensagem apela aos homens fortes africanos, mas é bobagem. Um estudo de Takaaki Masaki, do Banco Mundial, e Nicolas van de Walle, da Cornell University, indica que os países africanos crescem mais rapidamente se forem mais democráticos. A boa notícia é que à medida que a educação melhora e os africanos se mudam para as cidades estão ficando mais críticos aos governantes.

Em 1997, 70% dos partidos africanos no poder ganharam mais de 60% dos votos, em parte fazendo com que os chefes rurais intimidassem os eleitores locais. Em 2015, apenas 50% fizeram isso. À medida que a política se torna mais competitiva, a influência dos eleitores aumenta. E eles serão capazes de impor uma forma de globalização que funcione tanto para africanos quanto para estrangeiros. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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