Fiona Hanson/PA via AP
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The Economist: A rainha fica sem o seu vassalo mais fiel

De origem alemã e nascido na Grécia, Philip abdicou de sua carreira militar para ser coadjuvante de Elizabeth

The Economist, The Economist

10 de abril de 2021 | 05h00

Suas mãos enormes e avermelhadas eram as primeiras coisas que você via. Nos pulsos, o relógio simples de pulseira de couro marrom e a pulseira de cobre que usava para aliviar o reumatismo que tanto atormentava seus últimos anos.  Moldadas pelos genes e pela vida, aquelas mãos, imensas feito patas de leão, por sua vez moldaram as pessoas ao seu redor: sua mulher, seus filhos, seus súditos.

Se Philip fosse o afável aristocrata inglês que o rei e a rainha teriam preferido para sua filha mais velha, Elizabeth, tudo teria sido diferente. Mas ele era um outsider. Quando se casou com sua prima de segundo grau, aos 26 anos, ele havia perdido praticamente todas as suas raízes: seu pai estava morto; sua mãe, depois de ter sofrido um colapso mental, havia se retirado para o seio de uma ordem religiosa. Vestiu um hábito cinza até o fim da vida. Três de suas quatro irmãs se casaram com nazistas, nenhuma foi bem-vinda ao casamento real na Abadia de Westminster, logo após o fim da guerra.

Nessa época, Philip também tinha perdido seu direito de primogenitura, sua casa, seu nome, sua nacionalidade, sua igreja. Até mesmo seu aniversário – fixado primeiro no calendário juliano e, depois, no gregoriano – não era mais o mesmo. O século 20 desafiaria a monarquia britânica com divórcio, democracia e desdém. Mas o homem que segurava seu futuro nas mãos tinha o gosto de um imigrante pela tradição.

Ele foi para o Reino Unido por acidente. Nascera em 1921 na Ilha de Corfu. Seu pai, filho do rei da Grécia, tinha origem dinamarquesa e russa. Seu avô materno crescera na Áustria e na Alemanha e se tornara britânico. Ainda criança, Philip foi carregado a bordo de um navio dentro de uma caixa de laranjas quando sua família foi banida da Grécia. Até seus 10 anos de idade, viveram no exílio em St. Cloud, um frondoso subúrbio de Paris.

Sua família alemã queria que ele fosse criado na Alemanha e o mandou para a escola que haviam fundado em Schloss Salem, em Baden-Württemberg. Mas a ascensão de Hitler ao poder acabou com esses planos: o diretor judeu, Kurt Hahn, foi forçado a fugir para a Escócia, onde fundou uma nova escola, a Gordonstoun, com uma filosofia franca e o lema: “Há mais em você (do que você pensa)”. Quando menino, Philip costumava ser travesso, ainda que nunca desagradável. Desenvolveu um forte senso de dever público, além do gosto pela velocidade. Logo aprendeu a velejar, muitas vezes recebendo o trabalho de cozinheiro, pois parecia imune ao enjoo.

Aos 18 anos, seguiu para o Dartmouth Naval College, no sul da Inglaterra, onde foi eleito o melhor cadete. Quando a 2.ª Guerra estourou, naquele mesmo ano, navegou para Colombo, no Sri Lanka, e se juntou a um pesado navio de guerra que escoltava comboios australianos com destino ao Egito. A bordo, Philip passava algum tempo preenchendo os Formulários do Almirantado 519 e o diário para uso de oficiais juniores, um volume de encadernação robusta com contracapas de papel marmorizado. 

As entradas revelam uma paixão pelas tecnicalidades e certa rebeldia na ortografia. Os aliados de Hitler no Eixo são consistentemente chamados de “italienos”; boias viram “buóias”; há também muitos “errros” e “excessões”. No frontispício, ele assinou seu nome, Philip, Príncipe da Grécia. Os homens o chamavam de Pog. À noite, era o “Cachorrinho do Capitão” e uma de suas funções era fazer o chocolate quente.

Somente após a invasão da Grécia pela Itália, em junho de 1940, Philip começou a ver um pouco de ação. E quando aconteceu, foi dramático. Seu navio, o HMS Valiant, esteve no centro da batalha que destruiu a Marinha italiana. Philip foi mencionado nos despachos e saiu da guerra como um dos mais jovens primeiros-tenentes. No Palácio de Buckingham, Elizabeth, a princesa adolescente, tinha em sua penteadeira uma fotografia do jovem oficial barbudo que servia na marinha de seu pai e era seu primo. Lembrava muito o avô dela, o Rei George V.

Tempos depois, sua equipe muitas vezes o descreveu como um “muro de arrimo”. Quando questionado por uma jornalista sobre rumores de uma agitada vida privada, nos anos 60, ele rosnou: “Meu Deus, mulher! Não sei com que tipo de companhia você anda.” Mas ele era bom de resolver as coisas: seu Duke of Edinburgh Award Scheme, programa de atividades para adolescentes, agora opera em mais de 130 países.

Na vida pública, sua função era andar dois passos atrás da mulher, tentando, nem sempre com sucesso, entrar nas conversas triviais. Na vida particular, tomava a iniciativa e instava a rainha a abrir as asas com as palavras: “Vamos lá, Lilibet”. Seu passaporte o apresentava como “Príncipe da Casa Real”, mas ele se via como um modernizador. Poucos dias depois de se mudar para o Palácio de Buckingham, deu início a uma “Revisão da Organização e Métodos”. Visitou cada uma das cerca de 600 salas e quartos do palácio e perguntou a cada membro do pessoal o que eles faziam lá e por quê.

Mais tarde, expandiu sua pesquisa. Seu gabinete no primeiro andar oferecia uma visão panorâmica para seus interesses. Em uma longa parede forrada de estantes de livros, via-se sua coleção de modelos de navios em caixas de vidro. Entre eles estavam os livros que haviam chamado sua atenção: sobre vida selvagem, antropologia, história, estratégia naval, navegação. Em um canto, as biografias que haviam sido escritas sobre ele.

E, em uma mesa perto da janela, uma série de fotos de família em preto e branco. Muitos parentes, mas nenhum filho, a não ser um grande retrato colorido da princesa Anne, tirado nos anos 70. Era a sua favorita dos quatro filhos, a que mais se parecia com ele. Seus filhos o exasperavam, sobretudo o sensível Charles, que ele mandou para Gordonstoun, mesmo sabendo que ele sofreria bullying.

O casamento deu ao jovem príncipe desenraizado uma casa, um país, um passaporte, uma nova religião e a primeira estabilidade de fato na vida. Em troca, o menino imigrante ofereceu todo o seu apoio. Philip foi o primeiro dos nobres a prestar homenagem após a coroação da rainha na Abadia de Westminster, onde haviam se casado pouco mais de cinco anos antes. 

“Eu, Philip, duque de Edimburgo, me torno seu vassalo de vida e na lida, com integridade e adoração terrena”, jurou ele, ajoelhando-se e colocando suas mãos imensas entre as dela. “Fé e verdade eu lhe trarei, para viver e morrer contra todo o tipo de gente. Que Deus me ajude.” Pondo-se de pé, ele tocou sua coroa com os dedos e beijou-lhe no rosto. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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