The Economist: A Síria se tornou um narco-Estado

The Economist: A Síria se tornou um narco-Estado

Com indústria formal falida, país passou a exportar droga e tem como grande comprador regime opositor saudita

The Economist, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2021 | 05h00
Atualizado 24 de julho de 2021 | 10h39

Nas dunas ao norte de Riad, capital saudita, quando o sol se põe, a festa começa. As jovens tiram suas abayas, as tunicas negras que as cobrem em público, começam a dançar ao som de música tecno com os homens.

Algumas bebem, mas a maioria prefere Captagon, hoje a droga favorita no Golfo – US$ 25 cada comprimido –, chamada de Abu Hilaian (Pai de duas meia-luas) conforme as duas letras, “c” e “s” (do Captagon) gravadas nos comprimidos. Parte da família das anfetaminas, a droga tem efeito similar ao Viagra e domina o sono. “Com um comprimido, podemos dançar o fim de semana inteiro,” diz um raver.

Embora os governantes sauditas há uma década façam oposição ao regime sírio, o consumo da droga pelos jovens vem financiando a Síria. Para o presidente sírio, Bashar Assad, a droga se tornou uma bênção – pelo menos no curto prazo. O país hoje é o principal traficante do Captagon.

À medida que a economia formal desmorona sob o peso da guerra, das sanções e do governo predatório da família Assad, a droga se tornou o maior produto de exportação e fonte de moeda forte da Síria. Segundo o Centre for Operational Analysis and Research (Coar), consultoria com sede em Chipre, autoridades de vários lugares confiscaram no ano passado drogas vindas da Síria com um valor de mercado não inferior a US$ 3,4 bilhões (R$ 17,6 bi), em comparação com o produto mais exportado do país, o azeite de oliva, que chega a cerca de US$ 122 milhões (R$ 634 milhões) por ano. A droga está financiando o governo, diz Ian Larson, que produziu um recente relatório sobre o assunto para o Coar.

A Síria já está há muito tempo envolvida nas drogas. Nos anos 90, quando controlava o Líbano, o Vale de Bekaa era a principal fonte de haxixe da região. Mas a produção em massa de drogas dentro da Síria começou só depois de iniciar a guerra civil em 2011. Os oficiais fornecem aos seus homens o Capitão Coragem, como chamam o Captagon. 

Os combatentes xiitas do Afeganistão e Líbano, que vieram apoiar o regime sírio, trouxeram suas habilidades de produção e contrabando. O Hezbollah, maior milícia xiita do Líbano que tem dado um apoio crucial ao regime de Assad, adquiriu grandes áreas de terra na fronteira, nas montanhas Qalamoun. Em seguida, expandiu o cultivo de haxixe e desenvolveu uma nova indústria caseira fabricante de comprimidos da droga.

A Síria começou a exportar o Captagon em 2013, à medida que sua indústria formal definhava por causa da guerra, das sanções econômicas e da corrupção dentro do governo.

As indústrias químicas nas cidades de Alepo e Homs foram transformadas em locais de fabricação. No Golfo, o preço da droga é 50 vezes maior do que o seu custo na Síria. Os contrabandistas as escondem em carregamentos de rolos de papel, assoalhos de madeira e até de romãs. Os príncipes sauditas usam jatos privados para trazer a droga.

Apreensões do Captagon pela polícia em águas estrangeiras dão uma demonstração do porte do negócio. No ano passado, a polícia italiana descobriu um carregamento de 84 milhões de comprimidos num valor superior a € 1 bilhão ( R$ 6,2 bi) em um único navio. Na época, foi considerada a maior interceptação de drogas de anfetaminas no mundo. Mas, em maio, autoridades da Malásia apreenderam um carregamento de 95 milhões de pílulas. O porto líbio de Benghazi, ligado à Síria por uma rota de navegação regular, seria um entreposto-chave.

Os Assads insistem que não estão envolvidos. “Propaganda”, afirma Shadi al-Ahmad, economista em Damasco, leal ao regime. Mas como Assad tem dificuldade para pagar seus soldados, ele terceiriza grande parte da supervisão do contrabando para os senhores da guerra. A quarta divisão do Exército, comandada por Maher Assad, irmão mais novo do presidente, ficaria com uma grande parte. Outros operam em portos de Latakia e Tartous, no Mediterrâneo. Um traficante libanês próximo do Hezbollah e procurado pela Interpol orgulha-se no Facebook de seus vínculos com a família Assad e clérigos do Hezbollah. “Está fora de controle”, diz uma fonte em Damasco.

O regime considera o Captagon uma espécie de alavanca nas lutas de poder regionais. “Ele usa a droga como arma contra o Golfo”, diz Malik al-Abdeh, observador na Síria ligado à oposição. “A mensagem é: normalize as relações ou destruirem seus jovens.”

De qualquer maneira, os leais ao governo não são os únicos envolvidos. Os curdos que controlam a fronteira noroeste do Iraque com a Turquia basearam-se na experiência do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) que opera as rotas pelas montanhas para a Europa. Os rebeldes sírios sunitas, sob proteção dos turcos ao norte da Síria, também fazem parte. E a rota ao sul, através da Jordânia, para a Arábia Saudita está mais movimentada. “Todas as milícias conseguem suas receitas contrabandeando drogas”, diz um líder tribal no sul da Síria. Segundo ele, milícias do sul ajudaram milhares de refugiados a cruzar a fronteira para a Jordânia, com mochilas cheias de pílulas.

Para os sírios que ficaram, as drogas podem destruir o que resta da sociedade depois de uma década de guerra civil. “Os jovens que não foram mortos, se exilaram ou foram presos ou são viciados”, diz um assistente social em Sweida, cidade tomada por Assad no sul. De acordo com recente pesquisa junto a sírios no norte do país, em janeiro deste ano, 33% disseram conhecer um usuário de drogas. Um forte aumento em comparação com os 7% em 2019. O hábito é tão dominante que, durante o Ramadã deste ano, em abril e maio, a série no horário nobre na TV estatal era On a Hot Plate, sobre uma família de traficantes de drogas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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